terça-feira, 11 de março de 2008

Abandonar e recomeçar exercícios com frequência pode causar aumento de peso

Os dias mais quentes ficam para trás e aumentam as camadas de roupa para esconder o corpo. Esta parece ser a época certa para pensar em deixar a academia de lado, depois de uma temporada de exercícios intensos para exibir um corpo em ordem no verão. Pelo menos é o que mostram os números: em três grandes redes de academias de São Paulo consultadas pela Folha, o período com menor procura e maior desistência de alunos começa no final deste mês e segue outono e inverno adentro.

O problema, alerta uma pesquisa divulgada em fevereiro pelo "American College of Sports Medicine", é que a fase de parada favorece um ganho de peso maior do que o perdido durante a prática esportiva. "As pessoas deveriam ter em mente que os benefícios do exercício não são um depósito de banco. O que afeta a saúde é o que fazem hoje, e não o que costumavam fazer", alerta o pesquisador Paul Williams, do departamento de ciências da vida do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia (EUA).

Ele avaliou, durante sete anos, 17.280 homens e 5.970 mulheres. Concluiu que aqueles que corriam pequenas distâncias (até oito quilômetros por semana) estavam mais sujeitos a ganhar peso quando pararam do que os que se exercitavam mais. "Não sabemos ao certo quanto tempo de parada levaria ao ganho de peso. Eu imagino que de seis meses a um ano", disse Williams à Folha.

O estudo mostra ainda que a diminuição nas distâncias da corrida causa ganhos significativos de peso em todos os níveis, mas o aumento na balança é progressivamente maior à medida que o corredor se aproxima do sedentarismo.

Especialistas brasileiros acreditam que o aumento de peso pode ser explicado pelos hábitos alimentares adquiridos durante a prática dos exercícios. "A pessoa se propõe a nadar três vezes por semana e, por conta disso, passa a ingerir mais calorias. Então, pára de freqüentar, não diminui a ingestão de comida e adquire quilos extras", diz a endocrinologista Zuleika Halpern, uma das diretoras do departamento de obesidade da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

Para Williams, medir a ingestão calórica com a precisão necessária para computá-la em ganho ou perda de peso é difícil --o dado não foi considerado na pesquisa. "Provavelmente, parte do peso adquirido corresponde à compensação, pela dieta, da energia gasta ao começar a se exercitar."

Isso ocorre porque, em geral, quanto menos uma pessoa se exercita, menos se compromete com a atividade e tem menos disposição para fazer compensações (como diminuir a ingestão calórica) a fim de evitar ganhos de peso, se parar de praticá-la. É a explicação do fisiologista do exercício Turíbio Leite Barros Neto, coordenador do Cemafe (Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). "É uma questão comportamental. Ela não se envolve tanto na atividade e fica mais próxima de desequilibrar a relação gasto/ingestão de calorias."

Em contrapartida, muitas pessoas assumem metas irreais no verão, com dietas extremamente restritivas e exercícios vigorosos demais, difíceis de manter por muito tempo. Quando deixam de lado ambas as "estratégias", tendem a relaxar demais e voltam a se alimentar como antes.

Além disso, diz o médico, tudo o que o corpo reconhece como estímulo é usado para desencadear um mecanismo adaptativo, o que acontece também com o gasto de calorias: o indivíduo ativo terá maior consumo energético do que o sedentário. Em suma, quem possui mais massa magra tem um consumo maior de calorias por quilo de peso do que o indivíduo com mais tecido gorduroso. E a vida sedentária ajuda na diminuição da massa muscular e no aumento da gordura corporal, uma vez que músculos são bastante flexíveis --da mesma forma que aumentam quando estimulados, diminuem se não são exercitados.

Articulações

Além da dificuldade para manter o peso, o exercício intermitente também oferece outros riscos, como a sobrecarga das articulações e dos tendões. O problema, na verdade, está em acreditar que, mesmo se exercitando somente em algumas fases da vida, o condicionamento físico se mantém.

"Quem faz atividade física e pára é, de fato, um sedentário", alerta o ortopedista Ricardo Cury, diretor do Comitê de Cirurgia do Joelho da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia). E, quando volta a praticar exercícios, tem os riscos de um inativo, como o maior potencial de lesões. "O mais lamentável é que esse indivíduo perde os benefícios da atividade física em relação à capacidade cardiorrespiratória, ao controle de pressão arterial e de glicemia e à obesidade. E, quando quer tirar o atraso, algo típico do pré-verão, muitas vezes com tempo insuficiente para adquirir condicionamento, pode ter problemas ortopédicos, como inflamação nos tendões", diz.

Com esse hábito, o organismo acaba sofrendo agressões em vez de criar um mecanismo de adaptação progressivo e de manutenção. Isso sem falar nos riscos de morte súbita por excesso de esforço do coração, já conhecidos. "O aluno acha que está adaptado porque treinou um tempo na academia, mas parou ou freqüenta irregularmente. Quando volta, quer seguir o treino de antes, mas precisa necessariamente de uma readaptação", diz Mauro Cardaci, coordenador da musculação da rede de academias Fórmula.

Isso acontece porque, no Brasil, a atividade física ainda é vista pelos praticantes com fins puramente estéticos, e não como estilo saudável de vida, justifica o diretor técnico da rede Bioritmo, Saturno de Souza. "Menos de 2% dos brasileiros praticam sistematicamente algum esporte e muitos buscam resultados rapidamente sem entender que os de médio e longo prazos são muito maiores: força muscular, resistência e melhora do sistema cardiovascular."

Para os que se preocupam com a beleza, o hábito de se exercitar irregularmente também traz prejuízos estéticos: o vai-e-vem de peso pode causar pele e músculos flácidos. "O problema é o efeito rebote, que é mais forte com o passar do tempo, uma vez que a massa muscular diminui com o passar dos verões e é mais difícil correr atrás do prejuízo da parada", explica Barros Neto.