segunda-feira, 17 de março de 2008

Quem é bom já nasce feito.


O último grande evento esportivo do ano e muito comentado, mesmo por quem não gosta de esporte, é a Corrida de São Silvestre, muito em função da mídia e ser transmitida ao vivo por uma emissora de televisão.
 
É bacana vermos aqueles super-atletas cruzarem as ruas de São Paulo dando um verdadeiro espetáculo de capacidade física correndo de baixo de um calor bastante significativo.
 
Quem me conhece pessoalmente sabe que sou corredor já tendo nos anos 80 completado várias maratonas.
 
Pois bem, qualquer corredor, seja ele quem for, não consegue fugir da tradicional pergunta: Você já ganhou a São Silvestre, ou alguma corrida?. A minha resposta é não. Aí alguns, meio desapontados ainda insistem: Por que você então não treina para ganhar? Respondo sempre da mesma forma. Nem que colocassem um montão de dinheiro na minha frente com a promessa de se ganhar a corrida o dinheiro será todinho meu, ainda assim não conseguiria. Sabem por quê? O velho adágio popular "quem é bom já nasce feito" vale não só para a corrida como para qualquer modalidade esportiva.
 
Algumas pessoas nascem com uma capacidade física espetacular. Especificamente na corrida e especialmente as de fundo, os quenianos dominam a maioria das provas mais conhecidas no mundo. A explicação é até simples. Primeiramente é o biótipo magro, ossatura fina, pernas longas e tronco pequeno. É fácil entender que carregam menos peso, mas só isso não basta. A altitude dos países africanos em Volta do Lago Vitória, entre eles o Quênia, é alta com menos oferta de oxigênio. Isso favorece uma resposta do organismo em fabricar mais glóbulos vermelhos para transportar todo o pouco oxigênio que o organismo consegue captar nesse ar rarefeito.
 
Embora o Quênia esteja hoje "em pé de guerra", a cultura da corrida por lá é muito forte e por ser um país pobre o meio de transporte é precário obrigando as pessoas desde muito cedo a se locomoverem a pé. As crianças vão para a escola correndo e voltam da mesma forma. Assim como o Brasil é o país do futebol o Quênia é da corrida. Por tudo isso a capacidade fisiológica desses corredores é espetacular. Aí, com um treinamento adequado fica mais fácil ser um campeão. Não é para nós seres mortais.
 
Em contrapartida esses atletas, exatamente por serem especiais, têm uma enorme capacidade também de suportar um treinamento duríssimo, pois para vencer não existe outro caminho. A vida deles não é um "mar de rosas". São horas e horas de treino, dores musculares, lesões, viagens e pressão da sociedade e patrocinadores. Depois de vencer uma prova então, fica mais difícil ainda. Se não ganhar outra vez, porque não ganhou? Vem logo a cobrança. Haja criatividade para justificar. Foi o tempo, temperatura, umidade relativa do ar, passou mal, não dormiu direito... Ufa!  
 
Voltando ao cerne da questão eu corro visando a minha qualidade de vida. Corro para me sentir bem, sem culpa e dores musculares. Corro, malho, pedalo, nado e muitas vezes não faço nada. Tudo com moderação e bom sendo. Minha alimentação também. Naturalmente sem notas e nem tabus eu como de tudo um pouco e o que não gosto ou sei que faz mal não como. É outra pergunta que fazem. Sua alimentação é balanceada? Não. Resposta simples e direta.
 
Eu fico imaginando como deve ser chato ficar combinando esse alimento com aquele outro e se privando de certos prazeres da gula. Não posso comer isso ou aquilo porque engorda, porque o médico proibiu ou porque a sociedade condena. Fico imaginando como deve ser chato fazer tudo isso por causa dos outros ou porque é o padrão estabelecido pela mídia. Tem que ser magro ou magra, ter barriga de "tanquinho" ou bum bum durinho. Se o sujeito gosta de ser assim para satisfação pessoal, tudo bem. 
 
Fazer exercício por causa ou para os outros também deve ser um "saco", heim! Atividade física é uma necessidade natural não só do corpo humano, mas de todos os seres vivos. Os animais brincam, rolam, correm, caçam e quando cansam param. Não fazem para os outros. Nessas brincadeiras desenvolvem seus instintos. A corrida para o homem é um dos instintos naturais, mas cada um tem o seu limite geneticamente determinado. A vantagem da maioria das pessoas que não é atleta de elite é não precisar ficar se justificando porque não venceu uma corrida tão famosa.
 
Luis Carlos de Moraes