sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A ciência da energia do corpo

É possível interferir no ritmo metabólico e alterar o modo como o organismo processa e estoca calorias. Bom para a saúde e para a silhueta


 
Na academia de ginástica, o professor recomenda um suplemento à base de cafeína e chá verde para acelerar o metabolismo. Na porta da geladeira da moça que faz regime está pregado um plano alimentar para maximizar o gasto metabólico. Na conversa de cabeleireiro, mulheres na faixa dos 40 anos culpam a queda no ritmo do metabolismo pelo fracasso da dieta. O atleta faz um treinamento intenso para aumentar a taxa metabólica e ganhar mais energia para continuar treinando. A melhor maneira de aumentar o metabolismo tornou-se assunto das conversas de quem se preocupa com a forma física. Há uma centena de produtos alardeados como "aceleradores do metabolismo". São cápsulas e comprimidos embalados sob rótulos como Ripped Fuel, Maximum Metabolism, Slim Seduction, Thermoloid e por aí vai. As livrarias exibem títulos como Ultrametabolismo: o Plano Simples para Perda de Peso Automática, que por várias semanas figurou na lista dos mais vendidos do jornal americano The New York Times. Mas, afinal, o que é exatamente o metabolismo e qual a possibilidade real de alterar seu ritmo?
 

Fabiano Accorsi

GRAZIELLA FARINAZO 20 anos, recepcionista
PESO – 47,2 quilos
ALTURA – 1,64 metro
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 17,3% de gordura
ROTINA DE EXERCICIOS – Sedentária
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 1 656 calorias
COMENTÁRIO – Graziella é sedentária, mas sua taxa metabólica basal é alta, mesmo se comparada com a de alguém fisicamente ativo. Privilegiada pela genética, a moça não dispensa doces nem carnes suculentas, daquelas de churrascaria rodízio

Essas perguntas têm respostas simples e claras. Comecemos pela segunda, a maior parte dos produtos e planos alimentares não passa de lançamentos oportunistas, sem nenhum resultado prático. Mas nem tudo está perdido. A boa notícia é que a ciência dispõe de ferramentas para medir e classificar o metabolismo humano como nunca teve no passado. Os especialistas podem hoje indicar como cada tipo de organismo queima calorias e ainda prescrever exercícios, dietas e remédios individualizados de modo que, em vez de estocar energia, as pessoas possam usá-la com mais eficiência.

A resposta à primeira pergunta: metabolismo é toda e qualquer reação química que gaste energia para produzir ou modificar moléculas. Neste exato momento, há uma centena de processos metabólicos em curso no seu organismo. Existem, por exemplo, uma reação química específica para a absorção de cálcio pelos ossos, uma para a multiplicação celular e outra que permite a você ler esta reportagem. Há cerca de quatro séculos viveu em Pádua um professor de fisiologia humana chamado simplesmente Sanctorius. Ele foi o decano dos estudos do metabolismo humano ao tentar desvendar o que parecia um mistério aos sábios do indagativo e empírico século XVII: a diferença que havia quando eles comparavam o peso de tudo que um ser humano adulto comia e bebia com tudo que ele excretava em determinado período. Sempre saía menos, muito menos, do que entrava pela boca. Sanctorius saiu-se com a conclusão de que a transpiração talvez explicasse a diferença. Ele deixou como legado a idéia de que outras reações químicas "não detectáveis" do organismo deveriam também ajudar a explicar a diferença. Nesse processo inventou o primeiro termômetro clínico e um rudimentar medidor de pulsações cardíacas.

TALITA GONÇALVES 21 anos, estudante de nutrição
PESO – 67,9 quilos
ALTURA – 1,60 metro
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 34,6% de gordura
ROTINA DE EXERCÍCIOS – Leve
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 1 454 calorias
COMENTÁRIO – Talita está no extremo oposto de Graziella. Mesmo submetendo-se a dietas rigorosas, nunca conseguiu atingir seu peso ideal. Com um metabolismo lento, a prática de exercícios físicos intensos poderia ajudá-la a acelerar seu metabolismo basal em até 30%

Lailson Santos

Nos séculos seguintes, os cientistas viriam a compreender que o metabolismo não é uma questão relacionada apenas à perda de peso. Hoje os estudos do metabolismo são essenciais para o desenvolvimento do tratamento de um grande número de enfermidades. Alguns distúrbios têm origem em defeitos no processo metabólico. São doenças provenientes de erros genéticos raros e que atingem 1% da população. Entre elas está a fenilcetonúria, a carência de uma enzima para digerir um aminoácido presente no adoçante sintético aspartame e que pode lesionar o cérebro. O hipo e o hipertireoidismo, descompassos da glândula tireóide, afetam diretamente o ritmo do metabolismo. O terceiro grupo, mais numeroso, é o das doenças que desregulam diretamente o metabolismo e são agravadas por essas mesmas alterações metabólicas, em um ciclo perverso. Entre elas estão alguns dos distúrbios mais prevalentes nos dias atuais, o diabetes tipo 2, o excesso de colesterol e triglicérides e a obesidade abdominal.

Lailson Santos

ANUAR TACACH 33 anos, empresário
PESO – 69,4 quilos
ALTURA – 1,71 metro
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 15,3% de gordura
ROTINA DE EXERCÍCIOS – Intensa
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 1 440 calorias
COMENTÁRIO – Mesmo sob um ritmo intenso de treinamento físico e dieta alimentar regrada, a taxa metabólica basal de Tacach é baixa. Isso permite dizer que, se ele não praticasse exercícios, seu gasto calórico semanal cairia em 5000 calorias pelo menos – e a probabilidade de engordar aumentaria muito

Para as pessoas sadias o metabolismo que realmente importa é aquele que pode interferir na silhueta, o chamado metabolismo energético. É ele que coordena a matemática das calorias que entram, que saem e quanto é estocado sob a forma de tecido adiposo. A eficácia com que o organismo gasta energia varia de uma pessoa para outra. Numa sala com 100 pessoas, provavelmente haverá 100 diferentes taxas de metabolismo. Os genes respondem por até 50% do ritmo metabólico de cada um. Está na genética do metabolismo a explicação para o fato de a estudante de nutrição Talita Gonçalves, de 21 anos, brigar desde menina com a balança – apesar de muito frango grelhado e salada. Com 1,60 metro, ela pesa hoje 67,9 quilos. Já a recepcionista Graziella Farinazo, de 20 anos, é do tipo que come de tudo, não faz atividade física e não há nada que a faça engordar. Mede 1,64 metro e pesa 47,2 quilos. Diante de uma silhueta dessas, concebida sem nenhum esforço, é inevitável que os amigos brinquem que ela "é magra de ruim". A resposta para casos tão diferentes está no ritmo metabólico. O de Talita é 12% menor, embora ela tenha praticamente a mesma idade e a mesma altura de Graziella. Parece pouco, mas não quando isso significa caminho livre para consumir bolachas, chocolates ou se dar ao luxo de não fazer ginástica. Isso, é claro, deixando de lado (pelo menos um pouquinho) a preocupação com a saúde. A pedido de VEJA, o cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do Instituto Dante Pazzanese, de São Paulo, e as nutricionistas Michele Trindade e Fernanda Amparo mediram a taxa metabólica basal das pessoas que se dispuseram a ser fotografadas para esta reportagem.

Ainda que o peso da genética sobre o metabolismo seja grande, não se pode desprezar o impacto do estilo de vida sobre o metabolismo. Os bons hábitos podem acelerar o ritmo metabólico. Os maus, diminuí-lo. Entre as alternativas mais efetivas para aumentar o metabolismo, está o treino para ganho de massa muscular (veja o quadro). Quanto mais músculos, maior será a taxa metabólica. A explicação é que o tecido muscular gasta mais energia para funcionar do que o tecido adiposo. Meio quilo de músculo queima 35 calorias por dia, enquanto para a mesma quantidade de gordura o gasto é de somente 2 calorias diárias.

Fabiano Accorsi

ANDRÉ GILDIN 33 anos, gerente de marketing
PESO – 78,1 quilos
ALTURA – 1,81 metro
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 14,1% de gordura
ROTINA DE EXERCÍCIOS – Sedentário
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 1 714 calorias
COMENTÁRIO – André não faz dieta nem esportes e está um pouco acima do peso. A taxa de metabolismo basal que registra é compatível com a média correspondente à sua faixa etária, a seu peso e à sua altura. Ou seja, se ele praticasse exercícios e seguisse um cardápio saudável, perderia peso e ganharia músculos sem muita dificuldade

Do ponto de vista do acerto da máquina metabólica, o treinamento aeróbico complementa admiravelmente a construção de massa muscular. Mesmo as atividades moderadas, como uma caminhada, mantêm o metabolismo acelerado por até uma hora depois de seu término. Para quem pratica exercícios mais vigorosos, no período pós-exercício o metabolismo pode se manter acelerado por até oito horas. Por isso, algumas pessoas acreditam que não comer após o exercício é a melhor receita para se livrar do excesso de tecido adiposo, já que, nesse período, a queima calórica aumenta. "Essa, porém, não é a estratégia mais inteligente para manter o metabolismo elevado por mais tempo", diz a nutricionista Michele Trindade. "O ideal é consumir produtos ricos em proteínas e carboidratos." Desse modo, garante-se o suprimento de nutrientes necessários para a regeneração dos músculos, que acontece depois da prática de exercício físico.

SABRINA PARLATORE 32 anos, apresentadora
PESO – 58 quilos
ALTURA – 1,68 metro
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 22,1% de gordura
ROTINA DE EXERCÍCIOS – Moderada
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 1 267 calorias
COMENTÁRIO – Sabrina sempre esteve dentro do peso desejado. Sua taxa metabólica basal é compatível com o cálculo médio para pessoas fisicamente ativas, com essa faixa etária e altura. Seu estilo de vida tem um impacto maior que o da genética sobre a manutenção do peso

Fabiano Accorsi

Os hábitos alimentares também têm um papel na determinação da velocidade do metabolismo. Certos alimentos entorpecem a máquina. Outros lhe aceleram o ritmo. O açúcar refinado aciona no organismo um botão que poderia levar o rótulo de "estocar gordura". Ele fornece energia a um ritmo mais rápido do que ela pode ser queimada. Como resultado, acaba sendo estocado na forma de gordura. Muitos endocrinologistas recomendam os alimentos cuja absorção de nutrientes se faça de forma mais lenta – e que, no processo, exijam do organismo um maior esforço metabólico. A digestão de proteínas requer, em média, 25% mais energia do que a dos demais nutrientes. "Para absorver proteínas, como carnes e leite, o corpo gasta mais energia do que precisa para lidar com os carboidratos e com as gorduras", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, professor da Universidade de São Paulo.

Fabiano Accorsi

CAROLINA DIZIOLI 29 anos, farmacêutica
PESO – 58 quilos
ALTURA – 1,65 metro
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 22,2% de gordura
ROTINA DE EXERCÍCIOS – Moderada
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 1 354 calorias
COMENTÁRIO – Durante muitos anos, Carolina pesou, no mínimo, 10 quilos a mais que seu peso ideal. Ao fazer uma dieta e emagrecer, ela teve sua taxa metabólica desacelerada. Como introduziu uma rotina de exercícios às suas atividades diárias, conseguiu estabelecer um ritmo razoável de queima calórica

Embora tenha evoluído muito desde as toscas experimentações de Sanctorius, a ciência do metabolismo ainda é comparada pelos médicos à climatologia. Com isso, eles querem dizer que nesse campo de estudo médico, como nos estudos do clima, prevalecem ainda manchas de incerteza. Um exemplo: ao comparar o metabolismo de um magro com o de um gordo, provavelmente o gordo registrará um consumo energético maior, em valores absolutos. Isso se deve apenas ao fato de o gordo ser uma "máquina humana" maior do que o corpo de um magro? Sim. Isso explica também por que é mais fácil perder peso no início de uma dieta, mas muito ainda carece de explicações cabais nesse processo. "Quando se está acima do peso, o metabolismo está tão alto que qualquer redução em calorias resulta em perda de peso imediata", explica o endocrinologista Geraldo Medeiros, professor da Universidade de São Paulo.

Com o envelhecimento, o ritmo metabólico tende a diminuir. Mas não se pode culpar exclusivamente o avançar da idade pelo aumento de peso decorrente dessa queda. "Há que levar em conta que, conforme as pessoas envelhecem, elas tendem a diminuir o ritmo da atividade física", diz o médico Daniel Magnoni. Por isso, vários especialistas insistem que, com o passar dos anos, é fundamental manter elevado o nível de exercícios físicos e reduzir o consumo de alimentos em cerca de 100 calorias por década. Tais medidas devem ser adotadas a partir dos 30 anos. A recompensa está na manutenção do mesmo peso da juventude.

MIGUEL MITNE NETO 25 anos, biólogo e triatleta
PESO – 67,6 quilos
ALTURA – 1,78 metro
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 10,5% de gordura
ROTINA DE EXERCÍCIOS – Intensa
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 2 016 calorias
COMENTÁRIO – Miguel treina firme de uma a três horas por dia. Seu metabolismo é aceleradíssimo. Compatível, portanto, com o de atletas como ele. Uma das razões principais para essa performance é a quantidade de músculos em seu corpo – o equivalente a quase 90% de seu peso total

Lailson Santos

Enquanto a ciência não oferece a saída dos sonhos – "coma de tudo e emagreça" –, o que resta é seguir a constatação dos estudos disponíveis já consagrados. Eles mostram que refeições menores, a cada três ou quatro horas, aceleram o metabolismo e facilitam a perda de peso. "O café-da-manhã é um dos principais ativadores do metabolismo. É um erro pular essa refeição", diz o especialista em metabolismo Roberto Carlos Burini, da Universidade Estadual Paulista. Não se pode privar o organismo de alimentos por longos períodos. O problema de ficar muitas horas sem comer é que se parte vorazmente para a próxima refeição e come-se tão rápido que a informação de que já se está satisfeito demora a chegar ao cérebro. O resultado é que mais gordura será estocada, principalmente nos quadris, no caso delas, e na barriga, no caso deles. Ou seja, um metabolismo suficientemente acelerado e eficiente não pode ser conseguido apenas pela ingestão de pílulas milagrosas. Conhecer as complexidades do processo metabólico é um grande primeiro passo.

Fabiano Accorsi

GUSTAVO BORGES 34 anos, ex-nadador
PESO – 97,5 quilos
ALTURA – 2,02 metros
COMPOSIÇÃO CORPORAL – 14,5% de gordura
ROTINA DE EXERCÍCIOS – Intensa
TAXA DE METABOLISMO BASAL – 2 277 calorias
COMENTÁRIO – Gustavo foi atleta profissional até os 32 anos. Ao se aposentar das competições, porém, continuou praticando exercícios todos os dias. Dessa forma, ele preserva sua musculatura e evita um dos males comuns entre ex-atletas: a queda drástica no gasto calórico e o ganho de peso decorrente dessa redução

  Fonte: http://veja.abril.com.br/110707/p_078.shtml