sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Só com ração de passarinho

Para chegar aos 50 anos com o mesmo peso dos 20, a receita é comer nada, ou quase isso

Você que está na faixa dos 20 anos, sai com a camiseta molhada da academia de ginástica e come feito um passarinho para não engordar pode ter certeza: aos 30, a luta contra a balança ficará ainda mais difícil. Aos 40 e aos 50, então, nem se fala. A facilidade para ganhar quilos indesejáveis se acentua com o passar do tempo. Isso vale tanto para os homens quanto para as mulheres. "A única forma de você não engordar à medida que envelhece é reduzir o consumo de calorias e aumentar a prática de exercícios", diz o fisiologista Turibio Leite Barros Neto, coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte, da Universidade Federal de São Paulo.

A primeira explicação para essa tendência é a redução gradativa do ritmo do metabolismo (ou seja, da velocidade com que as células transformam o alimento em energia) ao longo da vida. Um estudo realizado por pesquisadores da escola de medicina da universidade americana de Washington comparou a capacidade de perda de gordura de um grupo de adultos de 20 anos com a de outro de 70 anos. Ambos foram submetidos à mesma dieta e, no início, a um programa moderado de atividades físicas. No primeiro momento, a queima de gordura pela turma de 70 anos foi 30% inferior à do grupo dos mais novos. Depois, foi aumentada a intensidade dos exercícios do grupo de 70 anos. Após quatro meses de treino intensivo, a perda calórica dos mais velhos se igualou à dos jovens, que durante todo o período da pesquisa se mantiveram em atividade física moderada. Isso prova que a possibilidade de perda acentuada de calorias por pessoas mais velhas existe, mas é suada. Nesse aspecto, a natureza foi mais generosa com os homens do que com as mulheres. Um homem de 50 anos que queira manter o peso pode consumir mais ou menos a mesma quantidade de calorias que uma mulher na faixa dos 20 anos que tenha o mesmo objetivo.

Mais difícil – Algumas pesquisas recentes vêm dando confirmação científica àquilo que as mulheres consideraram uma injustiça da natureza. Esses estudos explicam em detalhes as razões pelas quais os homens podem comer mais e engordar menos que as mulheres. Um dos trabalhos, desenvolvido por uma equipe do Centro de Nutrição Humana da universidade americana do Colorado, revelou que a resposta inicial do organismo masculino ao exercício físico é mais lenta que a do corpo feminino. Isso significa que durante uma sessão de ginástica a tendência da mulher é queimar mais gordura do que o homem. Até aí, ótimo. O problema é o que acontece depois: a gordura que foi embora volta com rapidez espantosa. O organismo feminino está programado para reter toda a gordura ingerida nas horas seguintes ao exercício. Com o homem, é diferente. A perda de gordura durante a ginástica é relativamente menor. Em compensação, a recuperação é mais lenta. No final das contas, os gramas de peso perdidos pelo homem durante o trabalho físico diário têm muito menos chances de retornar à silhueta do que os eliminados pela mulher.

Uma mulher de 1,70 metro e 80 quilos (obesa, portanto) submetida a uma dieta de 1.500 calorias por dia emagrecerá de 3 a 4 quilos ao final de um mês. Se um homem de mesmo peso e altura fizer uma dieta idêntica, sua perda será de 6 a 10 quilos no mesmo período. "É da natureza", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, professor da Universidade de São Paulo. "Por sua conformação física, a mulher sempre terá mais facilidade para ganhar peso e mais dificuldade para emagrecer do que o homem." A primeira explicação para isso é de natureza anatômica. O corpo do homem, de modo geral, tem mais músculos e menos gordura que o da mulher. E músculo consome mais energia. Portanto, em matéria de gordura, o corpo masculino é mais perdulário. Sua tendência é gastar sempre. A vocação da mulher, nesse caso, é acumular.
 
Seis vezes por dia – À medida que o tempo avança, homens e mulheres interessados em manter o peso devem desenvolver alguns hábitos apontados pelos especialistas como aliados naturais do organismo. Em lugar de fazer duas ou três grandes refeições e fechar a boca entre uma e outra, o recomendado é consumir pequenas porções de alimento ao longo do dia. Isso porque, ao ficar muito tempo sem receber alimento, o organismo deixa de realizar a termogênese. Esse é o nome do processo de queima de calorias durante a metabolização dos alimentos. Ou seja, quem consumir 1.500 calorias por dia divididas em seis refeições gastará mais energia do que aquele que ingerir a mesma quantidade de alimento em três vezes. "Quem salta uma refeição abre mão da termogênese e do gasto de energia", diz o médico Henrique Suplicy, responsável pelo serviço de obesidade do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

 

Montagem sobre fotos de Claudio Pinheiro/Alvaro Elkis


Fonte: http://veja.abril.com.br/081299/p_192.html#passarinho