terça-feira, 30 de setembro de 2008

Saúde precisa de persistência não de bomba.

Não há como pensar em boa forma física sem uma alimentação equilibrada. Na última década, os especialistas concluíram que ela tem papel fundamental nos resultados da ginástica. Não é à toa que os nutricionistas ganharam até salas permanentes nas grandes academias. O objetivo de um programa nutricional adequado é garantir perda de tecido adiposo e ganho de massa magra ou músculos. Durante a atividade física, o organismo queima três nutrientes: carboidratos, gorduras e proteínas. Nenhum deles deve ser cortado da dieta de quem deseja modelar o corpo. Num regime sem carboidratos, como o recomendado pelo americano Robert Atkins, o corpo queima apenas as proteínas, o que pode fazer a pessoa perder massa muscular e ficar flácida. Um aspecto a ser observado são os horários de ingestão dos alimentos. Os ricos em carboidratos devem ser consumidos, preferencialmente, antes ou depois dos exercícios. Eles são a grande fonte de energia. Recomenda-se evitar comidas gordurosas à noite. O motivo é simples: durante o sono, o organismo trabalha num ritmo mais lento e, por isso, queima menos gordura. Ou seja, seu suculento jantar vira barriga na certa.

 


JUMPFIT

São 45 minutos de pulos sobre uma minicama elástica. A modalidade ajuda a enrijecer os glúteos e a definir os músculos da perna. É possível gastar até 600 calorias em uma única aula

Suplementos esportivos à base de proteínas são absolutamente dispensáveis, na opinião dos nutricionistas. Fabricados com derivados da soja, do soro do leite ou do ovo, eles são indicados para atletas de competição que não conseguem suprir os gastos do treino intenso só com comida. O abuso de suplementos pode sobrecarregar os rins e comprometer o fígado. Outro produto que deve ser evitado é a creatina. Modismo adotado por 23% dos freqüentadores das academias paulistanas, esse aminoácido fornece em teoria energia quase que instantânea aos músculos. Em teoria. Não há nenhuma comprovação científica desse efeito. O que se sabe é que ele pode fazer tanto mal quanto os outros tipos de suplemento.

Três meses de ginástica são suficientes para melhorar o corpo, mas todo resultado é quase que imediatamente perdido quando se deixam a malhação e a dieta de lado. "Os benefícios se revertem com a mesma velocidade com que se instalam", afirma Turibio. Para seguir adiante, é preciso que você encare o exercício físico não apenas como uma obrigação. Ele deve ser também um divertimento. Está certo que é difícil encarar uma esteira como uma opção de lazer. Mas, se você competir consigo mesmo na ginástica, tudo fica mais fácil. Crie objetivos a ser superados. E não fique com vergonha de avaliar os resultados ao espelho. É o tipo de narcisismo estimulante.

 

"BOMBAS" QUE SÃO UMA BOMBA

A obsessão por corpos ultramusculosos leva
ao
consumo desenfreado de anabolizantes

Ariel Kostman

 

Fotos Claudio Rossi
Participantes de campeonatos de fisiculturismo nos EUA: riscos à saúde são desprezados em prol do ganho de massa muscular exagerada

Quando decidiu, aos 18 anos, ter um corpo esculpido por músculos bem torneados, Júlio (nome fictício) era um rapaz franzino – tinha 1,74 metro de altura, 30 centímetros de bíceps, 70 de peitoral e 50 de coxa. Hoje, aos 34 anos, ele é puro músculo. Seu muque cresceu 15,5 centímetros. Seu tórax está meio metro mais largo e cada coxa, 25 centímetros mais grossa. Professor de educação física, Júlio prefere se manter no anonimato. O motivo é simples: ele usa substâncias ilegais para ser forte e massudo. "Dois meses depois que comecei a tomar as drogas, ganhei 4 quilos de músculos", lembra. "Sem as bombas, levaria um ano para chegar ao mesmo resultado." As tais "bombas" são os esteróides anabolizantes, hormônios sintéticos capazes de fazer a massa muscular estufar. Eles podem ser injetados ou tomados sob a forma de comprimido. Seriam uma maravilha se não tivessem o efeito de um míssil atômico sobre o organismo. Podem causar insuficiência cardíaca, crescimento de mamas nos homens, aumento nas taxas de colesterol, impotência, hipertensão, câncer de fígado, infertilidade e aparecimento de pêlos no rosto das mulheres, entre outros problemas graves. Júlio, por exemplo, já foi vítima de uma intoxicação no fígado, semelhante àquela que acomete os alcoólatras.

Na surdina, as drogas são vendidas nas academias de ginástica e nas farmácias. Seu consumo é crescente. O maior levantamento sobre o uso de "bombas" no Brasil foi feito pelo Programa de Prevenção e Tratamento do Uso de Drogas na USP (Produsp), da Universidade de São Paulo. A pesquisa, que abarcou quase 1 500 jovens, de 18 a 25 anos, mostra que 25% deles já usaram essas substâncias pelo menos uma vez na vida. Em 1996, os usuários de anabolizantes não passavam de 0,5% dos entrevistados. Derivados da testosterona, o hormônio masculino por excelência, os anabolizantes aumentam a capacidade do organismo de sintetizar proteínas – que funcionam como tijolos de músculos. Além disso, essas substâncias retêm líquido, o que incha ainda mais a massa muscular. O resultado são homens e mulheres deformados.

Os especialistas são unânimes: menos de 1% dos homens e mulheres com corpos inflados estão programados biologicamente para ter músculos que, de tão grandes e definidos, parecem querer rasgar a pele. A maioria das pessoas pode se esfalfar na academia, comer proteínas até não mais poder e se entupir de suplementos alimentares, sem que jamais alcance o físico de um mister Universo. O limite de cada um é determinado geneticamente. "Mas os esteróides permitem romper esse teto biológico de musculatura e atingir um nível muito além do que a mãe natureza jamais pretendeu", escreveu o psiquiatra americano Harrison Pope, no livro O Complexo de Adônis.

A explosão dos anabolizantes reflete de maneira mais dramática o crescente desagrado dos homens com o próprio corpo. Seriam a versão masculina das "bolinhas" para emagrecer que afetam a saúde de milhões de mulheres. Uma pesquisa feita em 1972 detectou que 15% dos homens americanos estavam insatisfeitos com a sua aparência. Em 1997, eram 43%. O grande terror masculino – ao menos no que se refere à estética – é mesmo a falta de músculos. E o padrão é cada vez mais anabolizado. Os bonecos para meninos são um exemplo disso. O primeiro Falcon, lançado em 1964 nos Estados Unidos, não tinha músculos. Na versão de 1974, a primeira a chegar ao Brasil, ele já era fortinho. Mais de vinte anos depois, Falcon desapareceu. Em seu lugar, surgiu o Action Man, um "homem-armário" (veja quadro abaixo).

O descaso com a saúde, em prol de bíceps esculpidos, peitorais largos, abdome em gomos, cintura fina e coxas grossas, pode ser verificado nos diálogos travados pela internet entre os praticantes de fisiculturismo. Pela rede, são trocadas informações sobre pontos-de-venda, preços, quantidades mais eficientes de determinadas substâncias e por aí vai. No mês passado, um internauta reclamou numa das salas de bate-papo que, ao aplicar anabolizante pela primeira vez, ficou com o braço dolorido. Ao que um tal de "Reginaldo Farinha" respondeu: "Bicho, tá achando que tomar bomba é só alegria? Tem essas lamas também. Dói um pouco..." Na verdade, dói muito.

 

  Fonte: http://veja.abril.com.br/281101/p_126a.html