quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Todo mundo quer fazer Ioga

Pedro Rubens

 

Sempre que têm uma chance, a atriz Fernanda Torres e mais uma constelação de colegas famosos, como Rodrigo Santoro, Marcelo Serrado, Christiane Torloni e Luciano Huck, contorcem-se, esticam-se e permanecem (o.k., alguns só tentam) por vários minutos nas posições mais estranhas. São, no Brasil, a face mais conhecida da legião de convertidos à mais recente onda em matéria de condicionamento físico: a ioga. Para a maioria dos adeptos, ioga, nesse caso, tem muito pouco a ver com as técnicas desenvolvidas há mais de 5.000 anos na Índia com o propósito de buscar, por meio da meditação e de práticas exigentíssimas, a transcendência espiritual. Nas academias, nos programas de televisão, nos vídeos de fitness e até na classificação das prateleiras das grandes livrarias, ioga – aquele conjunto de exercícios tranqüilos e lentos, muito recomendados antigamente para grávidas e senhoras idosas – virou sinônimo de ginástica puxada. E, com base muito mais no desejo que na realidade, ginástica capaz de modelar corpos como o da modelo Stefanye Falco, que ilustra esta página, ou a saradíssima figura da cantora Madonna, aos 45 anos ainda a mãe de todos os modismos, que muito contribuiu para a difusão do gênero ao aparecer, fantasticamente contorcida, em foto na revista W.


AFP
HOMEM ELÁSTICO
Aos poucos, suavemente, o praticante de ioga ganha a flexibilidade de um contorcionista


A idéia de que a antiqüíssima prática indiana esculpe corpos fabulosos e que, mesmo de maneira muito vaga, "faz bem" à saúde alimenta uma demanda em ascensão. Por causa dela existe hoje um quadro inimaginável há quarenta anos: ioga e orientalismos afins, que nos tempos dos hippies e da contracultura faziam parte do arsenal de resistência aos valores da então execrada sociedade de consumo, tornaram-se atividades das mais lucrativas, administradas com técnicas empresariais modernas. Sinal inequívoco de que o público existe, e anseia por mais, é o evento que uma empresa de telefonia patrocina neste fim de semana no Rio de Janeiro, em que 16.000 pessoas foram convidadas a contorcer-se em aulas de ioga, workshops e baladas movidas a uma certa yoga dance – tudo comandado pela empresária Marlene Mattos, 53 anos, que diz que trabalhou por amor à causa. "Não pus nem ganhei dinheiro nenhum. Só ajudei a organizar", declara. Mesmo que movida por motivos imateriais, Marlene, com seu conhecido tino para os negócios, está entrando num jogo de gente grande. Nos Estados Unidos, são 15 milhões de praticantes: adultos jovens ou já entrados na maturidade, cheios de dinheiro para gastar, especialmente com produtos e serviços que prometam bem-estar. Por causa deles, gigantes como Nike e Adidas desenvolveram linhas específicas para praticantes de ioga. As roupas não diferem em quase nada dos modelos convencionais de ginástica – são um pouco mais folgadas e feitas de tecido mais leve –, mas já respondem por cerca de 10% das vendas de vestuário feminino das duas empresas no Brasil. De olho no filão, Marcos Wettreich, presidente do iBest, um dos maiores provedores de internet do país, vai investir 1 milhão de reais num empreendimento batizado de Espaço Nirvana, tendo como sócia a carioca Isabela Fortes, que largou o mercado financeiro para se tornar professora de ioga.

A trajetória do carioca Luiz Sérgio Alvarez, atualmente conhecido como professor ou mestre De Rose, 60 anos, dá uma idéia das potencialidades do ramo. Em 1969, ele fundou sua primeira academia de iôga (assim, com circunflexo no "o" fechado, única pronúncia que aceita) numa sala alugada em Copacabana. Hoje, são 205 unidades credenciadas no Brasil e 32 no exterior. Para usar a marca De Rose, o franqueado deve desembolsar 100.000 reais. De Rose, chamado de "mestrinho" pelas alunas, diz, com voz mansa, que o investimento compensa. "Os credenciados recebem imediatamente a mesma quantia que investiram em material didático" – que é todo feito por ele mesmo. É preciso paciência de iogue para calcular quanto de material didático seria necessário até completar 100.000 reais, mas o fato é que a marca tem apelo e é praticamente sinônimo de ioga no Brasil. De Rose criou também a Uni-Yôga, uma instituição que dá cursos de extensão em convênio com universidades. Por suas aulas já passaram, segundo ele, mais de 50.000 alunos. De Rose já escreveu mais de vinte livros, dos quais o mais conhecido, por motivos óbvios, é Hiperorgasmo, um tratado sobre as maravilhas do sexo tântrico (veja quadro) que depois foi rebatizado, mais circunspectamente, de Tantra, a Sexualidade Sacralizada.


AP
FEIRA ZEN
Cerca de 2 000 pessoas participam de uma aula na Yoga Expo 2003, evento recordista em Los Angeles

De Rose não é unanimidade num meio em geral tomado por divergências de fazer inveja às divisões internas do Partido dos Trabalhadores. Os gurus do setor divergem até sobre o que pode ou não ser considerado ioga. Modalidades vigorosas como ashtanga e power ioga, por exemplo, são reputadas por alguns como mera ginástica com tintas orientais. No fertilíssimo mercado americano, no qual as apostas são maiores, as brigas também sobem de tom, com plácidos iogues importados da Índia para comandar grandes academias trocando acusações de plágio na Justiça. Em qualquer lugar, a explicação é a ocidentalíssima competição. Na defesa de seu nicho de mercado, mestres pioneiros deixam de lado a atitude zen para cutucar a concorrência. "Eu não vendo ioga, eu vivo ioga", diz Hermógenes de Andrade, 82 anos, um dos precursores da prática no Brasil e autor de mais de trinta livros, que cobra 900 reais por palestra em empresas. Para sorte dos mestres mais ambiciosos, cabe muita gente no imenso mercado que resultou da descoberta do Oriente. Segundo a International Health, Racquet & Sportsclub Association, dos Estados Unidos, a ioga já é praticada em 86% das academias americanas e em 64% das academias do mundo. Ashtanga, hatha, swásthya, power, não importa – academia de ginástica que se preze tem ioga para oferecer aos alunos, mesmo em versões completamente heterodoxas, que vão desde ioga para bebês, para cães com seus donos e até para motoristas. Nas salas de malhação, ela foi reformada e ganhou nomes curiosos, como ioga fitness, fit oriente e pilates power mix. Essas ramificações da moda, ao contrário da ioga tradicional, não têm a pretensão de atingir algum nível de elevação espiritual. As criações mais ao gosto do público das academias de ginástica não se baseiam numa mistura de exercícios calmos e meditação. Eduardo Machado, professor de ioga de São Paulo, procura reunir duas metades que parecem se repelir. Ele convida seus alunos a associar o vigor do spinning com a introspecção do ritual de meditar. Em sua aula, os praticantes pedalam durante uma hora ao som de músicas new age e de tempos em tempos, com os olhos fechados, chegam a entoar mantras (o inevitável "ooommmm"). "É possível meditar enquanto se faz exercício. Só é preciso concentração", garante Machado, budista há quatro anos e típico guru dos novos tempos: bem-apessoado, malhado e muito à vontade entre aparelhos de musculação.

AFP
RECORDE
Com treinamento puxadíssimo baseado em técnicas de ioga, Tanya Streeter, das Ilhas Cayman, é campeã mundial de mergulho sem equipamentos


A ioga, hoje, é procurada por três tipos de pessoa. Mais recentemente, desembarcaram nas novas modalidades da ioga aqueles praticantes que sempre querem experimentar uma novidade. Outro tipo é representado por gente que se cansou das atividades frenéticas e cansativas das academias. Esses querem coisa mais calma e relaxada com que ocupar seus músculos. Por fim, há os que, além dos benefícios para o corpo, buscam também algo que lhes faça bem pelo lado de dentro. As vantagens visíveis são evidentes: a ioga proporciona força, flexibilidade, equilíbrio e melhor condicionamento cardiovascular. Basta ver alunos de nível apenas mediano contorcidos em posturas intrigantes e graciosas – os asanas – para perceber que é preciso muito trabalho muscular. O segredo está na conjugação de alongamento com postura. Combinados, produzem também a sensação de bem-estar sereno, sem picos de adrenalina mas bastante pronunciado, que é uma das características mais marcantes da ioga. "Além de um alongamento ativo e prolongado, a prática melhora a postura, com efeitos positivos sobre circulação, pressão arterial, articulações e coluna vertebral", enumera Héldio Freitas, responsável pelo Núcleo de Medicina do Esporte da USP.

Em nível mais avançado, as técnicas respiratórias ajudam atletas que precisam de muito fôlego, literalmente, como alpinistas, nadadores e praticantes de mergulho livre. O efeito calmante dos exercícios posturais e da respiração profunda, mesmo para quem não atinge nada parecido com a "supressão dos turbilhões da mente" pregada pelos antigos mestres, também entra na categoria dos benefícios. Como o stress tem algum grau de influência sobre um grande leque de doenças, das cardíacas a certos tipos de câncer, não é absurdo aceitar o componente preventivo da ioga. Ir além disso já é entrar no campo das suposições sem comprovação científica. Em alguns hospitais americanos, pacientes que sofrem cirurgias cardíacas podem ter aulas de ioga, entre outras terapias, no duro período de recuperação. Noel Bairey Merz, diretora do centro de reabilitação do Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles, afirma que os que optam pela ioga têm "tremendos benefícios", incluindo diminuição do colesterol e queda da pressão arterial, melhora da circulação cardiovascular e, em alguns casos, até reversão do espessamento das artérias. Não existem, porém, estudos em quantidade suficiente para corroborar essas impressões. Da mesma forma, não há confirmação de uma das hipóteses aventadas sobre os efeitos positivos da ioga: a de que as posições mais contorcidas provocam uma espécie de massagem nas glândulas do sistema endócrino, o que aumentaria a secreção de hormônios, inclusive em mulheres entradas na menopausa.

Boa parte da multidão que lota as academias está de olho mesmo é no efeito da ioga sobre o corpo. Praticante há um ano e meio, o ex-piloto Pedro Paulo Diniz, 33 anos, exalta as qualidades do que já foi chamado de o "exercício perfeito", pela abrangência de seus efeitos. "É o esporte mais inteligente que já conheci. Corria, fazia musculação, mas hoje não sinto falta de nada disso. Emagreci e parei de sentir dores nas costas", diz. A ioga, de fato, é muito eficiente para alongar a musculatura e melhorar a flexibilidade. Mas a forma impecável só é alcançada depois de muito suar o tapetinho e geralmente está associada a algum outro esporte. A própria Madonna, junto com ioga, praticou dança a vida inteira e depois pegou pesadíssimo na malhação. Outras famosas americanas – Julia Roberts, Gwyneth Paltrow, Michelle Pfeiffer – antes de se esticarem nas aulas de ioga já figuravam entre as mulheres mais belas do planeta. No Brasil, Christiane Torloni, que anda invejavelmente em forma, começou a fazer ioga durante as gravações de Mulheres Apaixonadas, mas antes disso encarou meses de musculação rigorosa para encenar a peça Joana Dark. Rodrigo Santoro, adepto há dois meses – "Traz equilíbrio corporal e mental" –, continua surfando, correndo e nadando, como sempre fez. Fernanda Torres, aficionada há três anos, atribui o corpo "seco" e rijo à ioga: "A pele cola no músculo, o músculo cola no osso". Mas também faz corrida e, depois da gravidez, mudou a alimentação – come verduras, carne branca e cortou doces e bebidas alcoólicas. "Quem quer ganhar condicionamento físico tem de fazer ginástica. Só ioga não resolve", avisa o fisiatra Luiz Felipe Guimarães, que trabalha em dois dos mais conceituados hospitais do Rio de Janeiro, a Clínica São Vicente e o Samaritano. Guimarães alerta para os perigos das modalidades mais vigorosas da ioga na musculatura de quem está fora de forma. Para a ioga funcionar, é preciso ir se contorcendo aos poucos. Quem não tiver boa orientação e paciência oriental, em vez de virar Stefanye, a modelo da abertura desta reportagem, que tem dez anos de prática e é instrutora de ioga, pode dar um nó na coluna. Quando der um ataque de pressa por resultados, respire fundo e lembre-se de que ioga originalmente significa união. Do que com o quê? "Da alma individual com o espírito absoluto", é uma das respostas. Há outras.

 

O mestre do hiperorgasmo

Claudio Rossi


Para qualquer homem ocidental, o princípio da coisa soa estranhíssimo: a ejaculação constitui um desperdício de energia vital a ser evitado a todo custo. Esse conceito primitivo, disseminado pelo Oriente, está na base da modalidade de ioga que deve ser praticada a dois, entre quatro paredes (de preferência com muitas velas e incenso), o tantra. Pela doutrina inventada na Índia, o sexo tântrico conduz à purificação espiritual e ao autoconhecimento, e somente iniciados em outros níveis da ioga podem ter acesso a ele. As relações sexuais duram horas ininterruptas e o orgasmo masculino, além de adiado ao máximo, deve acontecer sem ejaculação, uma aparente contradição que os praticantes dizem ser possível. A promessa é de um prazer inigualável – daí o título Hiperorgasmo dado originalmente pelo mestre De Rose a seu livro sobre o palpitante tema. De Rose descreve o orgasmo, tal como entendido pela maioria das pessoas, como "apenas um espasmo nervoso, um vislumbre do prazer". Já o hiperorgasmo se assemelharia a uma explosão nuclear. Atingir esse patamar de prazer estonteante requer boa alimentação, não beber, não fumar, não usar drogas e fazer exercícios diários para enrijecer a musculatura genital. O sexo em si é feito sem movimentação de espécie alguma, a não ser lentas contrações da mulher, a quem cabe a condução da prática tântrica clássica.

O sexo tântrico faz parte do curso de instrutores da Uni-Yôga, a "universidade" criada por De Rose, mas, segundo ele, todas as aulas são teóricas. Muito práticos, por outro lado, são os conselhos que o mestre dá no livro ainda inédito Alternativas de Relacionamento Afetivo. Nele, tal como um dinossauro remanescente da década de 70, prega o casamento aberto, que define como "uma vertente do casamento monogâmico, só que com atenuantes". A justificativa para decidir abordar o tema do relacionamento em livro também é prática. "Nós últimos quarenta anos, fui casado mais de dez vezes. Estou mais qualificado para dissertar sobre o tema que os teóricos da matéria", diz De Rose, pai de três filhos. As mães são todas instrutoras de suas academias de ioga, reputadas pela beleza.

  Fonte: http://veja.abril.com.br/191103/p_082.html