segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O apetite, a fome e a saciedade


Nesta era de relativa abundância de alimentos, é curioso como as sensações de fome e saciedade são muito pouco comentadas nas sociedades de países industrializados e emergentes. A maioria das pessoas, mesmo nas classes de baixa renda, tem o necessário para não passar fome. É óbvio que em várias regiões da África, em países populosos como a China e na região Nordeste do Brasil, com áreas inóspitas e desérticas, pode faltar alimento. Mas, de maneira geral, o espetacular desenvolvimento da agricultura racional, sementes e insumos cientificamente aprimorados, colheita fácil e distribuição rápida e eficiente fizeram com que o custo do alimento se tornasse acessível a grande parte da humanidade.

O homem primitivo, apenas caçador (e raramente lavrador) apenas tinha alimento quando conseguia abater um animal. Era o dia do banquete. Acabada a festança, surgia a falta do alimento. Por isso, na evolução do homem, o cérebro, nosso "computador central", organizou-se para ditar algumas regras. Quando havia abundância de alimento, o homem primitivo (e principalmente a mulher em idade fértil) deveria, obrigatoriamente, guardar a energia do alimento sob forma de gordura. Era o "seguro obrigatório" para a sobrevida, nas épocas sem comida nem caça. De forma excepcionalmente eficiente, o cérebro criou na região chamada hipotálamo um centro de produção de neurotransmissores encarregados da indução da fome ou saciedade.

Quando, depois de uma refeição, surgia a saciedade, o "computador central" indicava que parte do alimento ingerido deveria ser guardado nos "depósitos de energia", em forma de gordura acumulada. Depois de alguns milhares de anos, a humanidade teve anos de "vacas magras" e "vacas gordas". Apenas no século XX o agronegócio conseguiu oferecer mesa farta para mais gente. Agora nos preocupamos com outro problema: a ingestão de comida está além do razoável e estamos ficando cada vez mais gordos.

Como o corpo regula a fome e o apetite

A Organização Mundial de Saúde (OMS) nos avisa que há cerca de 1 bilhão de pessoas com excesso de peso e que 300 milhões dos habitantes do planeta são obesos. Em alguns países esses números triplicaram nos últimos 25 anos. Pior: existe um grave problema de obesidade infantil. É obvio que um dos fatores é a abundância do alimento - a mesa farta, a facilidade do fast-food, a entrega em casa a qualquer hora, a imensa quantidade de alimentos prontos, fáceis de comprar, de comer, de abusar. Os doces, antes privilégio dos nobres, estão em todos os mercados, restaurantes, cinemas, escolas. E por que não resistimos a este ambiente que nos leva á obesidade? Porque nosso sistema central de controle não nos auxilia com indução da saciedade.

A teoria do sistema de poupança primitivo

Muitos cientistas acreditam que nós, seres humanos, temos em nossos genes um importante sistema de poupança de energia. Isso significa que qualquer excesso de calorias que entrar no nosso organismo tem a tendência de ser convertida em gordura, fonte de energia armazenada. Este processo é coordenado por vários hormônios, como os característicos do homem (testosterona) e dadas mulher (estrógeno). O hormônio de crescimento também é anabólico, ou seja, tende a conservar energia calórica dentro do nosso organismo. Mas é principalmente o hormônio produzido pelo pâncreas, a insulina, que induz nosso organismo a "produzir" mais gordura, a partir do excesso de alimentos que ingerimos. Se exagerarmos na comida, os hormônios agem no sentido de nos manter mais "gordinhos".

Sistema digestivo tem um papel fundamental

Nosso sistema digestivo está sempre "conversando" com os centros superiores cerebrais ligados à fome e saciedade. O estômago, quando fica "vazio" por quatro ou cinco horas, começa a secretar uma substância chamada ghrelina, que, colocada na circulação, estimula o centro da fome, clamando por comida. Quanto mais longo o período de jejum, maior a concentração de ghrelina no sangue e maior o estímulo para indução de fome. Fica claro que a pessoa que apenas toma um cafezinho pela manhã, entra e sai de reuniões e fica grudada no telefone e presa no computador não tem tempo para almoçar, fazer um pequeno lanche, comer alguma coisa. Resultado: essa pessoa terá um nível de ghrelina muito elevado (e crescente) durante todo o dia.

À noite, depois de um dia exaustivo, sem comer direito, a pessoa avança sobre a mesa de jantar e devora sua refeição. A ghrelina circulante, já muito elevada, transforma boa parte do que essa pessoa ingere em gordura. Conclusão: não vale a pena passar o dia todo tomando café e sem se alimentar, porque vai ganhar peso sem saber porque está engordando. Quando o obeso decide fazer a cirurgia de redução de estômago, esse órgão é reduzido a uma cavidade muito pequena. Nessas circunstâncias o paciente só pode ingerir pequenas quantidades de comida. Com isso, a ghrelina quase não é secretada por esse estômago reduzido - e a sensação de fome induzida pela substância deixa de existir. É esse mecanismo que explica o sucesso da técnica cirúrgica.

Geraldo Medeiros

email: medeiros.dr@gmail.com

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/nutricao-homo-obesus/