segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Hormônio masculino e idosos


As estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que a expectativa de vida aumentou de forma extraordinária nos últimos 50 anos. Em 1950 um homem tinha a expectativa de viver, em média, 68 anos. Em 2010, essa média subiu para 75 anos. A projeção para 2050 é que um homem possa viver 81 anos. Com estes números pode-se afirmar que os países mais ricos, do hemisfério norte, assim como as classes mais privilegiadas dos países ditos emergentes, terão progressivamente mais idosos em suas populações.

Enquanto em 2010 cerca de 16% da população deverá ser composta por pessoas com mais de 65 anos, em 2050 a projeção aponta para 29% de idosos, ou seja, um terço da população terá mais de 65 anos. Essa é uma das preocupações das autoridades governamentais atualmente. Esses idosos, por sua saúde frágil, possam depender de cuidados es podem demandar em maior necessidade de atendimento médico, nutricional, fisioterápico e psiquiátrico. No entanto, se desde já o idoso for preparado para uma existência mais longa, com boa qualidade de vida, ampla capacidade física e emocional, níveis hormonais adequados e boa ossatura, teremos um segmento social de idosos que muito poderá contribuir para o bem coletivo.

O nível hormonal de homens declina com a idade

Sabemos que o tempo traz a diminuição da força muscular, da libido e da vida sexual, atingindo parcela importante dos homens de mais de 65 anos. Vários estudos populacionais indicaram declínio do hormônio masculino (testosterona) com o avançar da idade. Neste ponto é oportuno lembrar que a testosterona é secretada por uma linhagem de células testiculares conhecidas pelo nome de Células de Leydig. Estas células são "a fábrica" da testosterona. No entanto, para que possam trabalhar com eficiência, precisam ser estimuladas por hormônios que são produzidos na hipófise, nossa glândula mestra.

A hipófise manda para a circulação dois hormônios, de siglas LH e FSH, que estimulam tanto a produção de testosterona como de células germinativas, ou seja, de espermatozóides. Quando a testosterona é secretada na circulação logo ocupa um lugar no "ônibus" que a transporta aos locais onde terá sua ação de hormônio masculino. O "ônibus" se chama SHBG. Em resumo, a testosterona não trafega "livre" mas está sempre dentro do ônibus SHBG. Ao chegar aos locais onde se necessita ação de hormônio masculino (próstata, genitais, barba, couro cabeludo, sistema nervoso central), libera-se a testosterona livre.

A testosterona livre no idoso

Muitas vezes a simples dosagem de testosterona total não nos indica queda do hormônio masculino. Deve-se sempre solicitar a mensuração da testosterona livre, que, em última análise, é a que efetivamente vai agir nos tecidos e nas características masculinas do indivíduo. Notou-se que, com a idade, a testosterona livre sofre queda de 1,5% ao ano após os 60 anos. Esta queda é mais acentuada quando o indivíduo é muito obeso, com índice de massa corporal acima de 30. A queda da testosterona livre tem várias implicações clínicas, tais como diminuição da libido, disfunção erétil, aumento da massa adiposa e declínio da massa muscular, redução da força muscular, queda do nível de cálcio dos ossos, possibilidade de sintomas depressivos, declínio da capacidade cognitiva e, sem dúvida, qualidade de vida precária.

A queda da testosterona livre pode se associar a este conjunto de sintomas, mas, seguramente, não irá produzir efeitos danosos na área cardiovascular. Em estudos realizados em grande número de pacientes com níveis baixos de testosterona livre não se observou aumento de insuficiência coronariana, de infarto de miocárdio ou de acidente vascular cerebral comparativamente a indivíduos com níveis normais de testosterona livre. Outros estudos, contudo, mostram que homens com baixo nível de testosterona livre têm maior número de fraturas do colo do fêmur por falta de cálcio nos ossos.

A terapêutica com hormônio masculino

Esta é uma questão bastante controversa. Primeiro não se deve administrar hormônio masculino a todos os indivíduos que se queixam de fadiga crônica, de queda da libido e de disfunção erétil. Tais sintomas podem não ter nenhuma relação com nível adequado de testosterona livre. As Sociedades Médicas indicam que somente pacientes com valores de testosterona livre abaixo do menor valor de referência devem ser candidatos a reposição hormonal com hormônio masculino.

A regra, todavia, não pode ser uma "cláusula pétrea". A comunidade médica aceita que, hoje em dia, um número bem maior de idosos deve ser tratado com testosterona. Existem várias preparações deste hormônio para fins terapêuticos desde injeções de curta duração (1-3 semanas), adesivos para a pele contendo testosterona absorvível, gel de testosterona para fricções na pele e até preparações de testosterona para absorção pela mucosa bucal.

A forma mais adequada, segura e conveniente para o paciente é a testosterona de longa ação - três meses. Esta forma de tratar o idoso requer uma aplicação a cada 90 dias. O nível de testosterona total e de testosterona livre mantém-se elevada durante os 90 dias, assegurando excelente qualidade de vida, aumento da libido, melhor desempenho sexual, melhor massa muscular e incremento do depósito de cálcio nos ossos, evitando-se a eventual osteoporose.

Geraldo Medeiros

Médico endocrinologista Professor da USP | email: medeiros.dr@gmail.com

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/nutricao-homo-obesus/