quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Esqueça a avaliação física

Na minha opinião, o procedimento clássico de avaliação física, composto de avaliações antropométricas (peso, altura, dobras cutâneas, perimetria), avaliação postural, teste submáximo de capacidade aeróbica, teste de flexibilidade e alguns testes neuromusculares de força ou resistência muscular é uma das ações potencialmente mais destruidoras da auto-estima de clientes de academia ou de personal training, principalmente aqueles que não estão na sua melhor forma física.

Para convencer clientes a passar por esse processo e pagar por ele, diz-se durante a matrícula ou no início do trabalho de personal training que a avaliação física fornecerá dados fundamentais para a prescrição de treinamento, que poderá detectar possíveis limitações que eles tenham para praticar exercícios e que servirá como um parâmetro de comparação mais objetivo dos resultados do treinamento.

Mas tente imaginar, através dos olhos e da experiência dos clientes, o que é a essa avaliação:

1 - Antes de tudo, 
mais uma taxa que o cliente pagou para ingressar na academia.

2 - Um 
obstáculo entre o estado e o momento que o cliente se encontra hoje e o início efetivo do processo de treinamento e de toda a dinâmica de atendimento da academia.
O cliente é avisado logo de cara que enquanto não tiver feito a avaliação, a equipe técnica ou o personal trainer não poderá prescrever o treinamento dele de modo seguro, eficiente e personalizado. Ou seja, ele sabe que não entra no "jogo" enquanto não tiver feito a avaliação e dessa forma a avaliação é vista como uma espécie de "vestibular" desagradável e obrigatório.
Pior ainda, algumas academias levam tão a sério essa questão de tornar a avaliação física um obstáculo que barram o cliente na catraca de entrada quando ele não fez avaliação ou quando o prazo para a reavaliação venceu.

3 - A avaliação é, para muitos clientes, um 
momento constrangedor.
Imagine-se sedentário, totalmente fora de forma e de mal com a sua auto-imagem. Agora, imagine-se fechado em uma sala aonde um estranho vai te pesar, medir sua altura, pedir que levante ou tire a camiseta para procurar pelos seus desvios posturais, te beliscar com o adipômetro para medir a espessura das suas dobras de gordura e usar uma fita antropométrica para medir os seus perímetros corporais.
Além disso, esse estranho ainda vai te colocar para realizar um teste quase exaustivo na esteira ou na bicicleta ergométrica, medir sua flexibilidade usando um banco de wells e pedir que você faça o maior número possível de abdominais e flexões em um dado intervalo de tempo.
Sabemos que em muitas academias essa sala é apertada e possivelmente mal cheirosa porque não tem nem janela. A sala de avaliação física normalmente é o espaço que "sobrou" na área útil da academia. Sem contar que ela fica cheia de aparelhos e objetos que muitas vezes são habituais em um hospital ou consultório médico. Imagine-se dentro dessa sala. Você estaria à vontade?
No caso do personal training, esse momento pode ser menos constrangedor porque normalmente é o próprio personal trainer quem realiza a avaliação e essa pode ser realizada na casa do cliente, em um espaço bem mais agradável.

4 - 
É uma prova para a qual quase nenhum cliente está preparado.
Se os procedimentos descritos acima forem realizados em um cliente há décadas sedentário e que está bem acima do peso, mas que tomou recentemente a decisão desafiadora de adotar um estilo de vida mais ativo e se matriculou na academia ou contratou um personal trainer, qual a chance do resultado de alguma dessas avaliações ser no mínimo satisfatório?
Quais são as chances desse indivíduo de ser classificado em um teste submáximo de capacidade aeróbica como bom, ótimo ou excelente?
Quais as chances dele ficar dolorido no dia seguinte?

5 - Além do constrangimento e da dificuldade descritos acima, o que a academia ou os personal trainers também fazem é 
certificar e validar a incompetência do cliente, registrando tudinho em um computador, imprimindo e entregando ao cliente um relatório carimbado e assinado com todos esses resultados em números e gráficos coloridos.

Finalmente, com esse documento, o cliente terá uma prescrição segura, eficiente e personalizada do treinamento.

MESMO? DE JEITO NENHUM!

Afirmo com tranqüilidade que a correlação entre a avaliação física e a prescrição de treinamento que foi vendida ao cliente no momento do início do trabalho é pífia, para não dizer inexistente.
Faço aqui justiça aos poucos profissionais que conheci até hoje que sabem interpretar os resultados de uma avaliação física e usá-los a favor da prescrição de treinamento do cliente e registro minha admiração por eles mas a maioria de nós professores e personal trainers damos uma olhadinha no relatório da avaliação, fazemos "cara de conteúdo" e não utilizamos esses dados para praticamente NADA.

Muitas vezes iniciamos o processo de prescrição de treinamento sem dialogar com o cliente seja para explicar os resultados da avaliação ou mesmo apenas para ajudá-lo a descobrir o que ele poderia gostar de fazer como atividade física regular.
Para que serve um relatório que diz ao cliente que ele está fora de forma, gordo, torto, fraco, rígido e descondicionado?

O que fizemos foi confrontar o cliente com tudo aquilo de mais negativo que ele tem naquele momento. Ele possivelmente veio nos procurar para ajudá-lo a ser diferente e o que fazemos logo de cara é mostrar para ele o quanto ele está mal.

Considere agora o impacto negativo dessa percepção para a retenção, que é um dos indicadores mais importantes na operação de uma academia. Sabe-se que as experiências que os clientes terão nas primeiras semanas academia têm grande influência na decisão dele de continuar freqüentando a academia por mais meses ou anos.

Se a avaliação física confronta diretamente o indivíduo com seus aspectos físicos negativos, é estrategicamente desvantajoso que isso ocorra muito no início do processo, quando um dos principais objetivos é fazer com que ele se sinta confortável e tenha um acréscimo de auto-estima.

Qual a solução então? Temos de pensar um novo sistema.

Convoco os leitores para uma reflexão, pois apesar de o título desse post soar como uma palavra de ordem, confesso que acredito no processo de coleta e comparação de medidas como uma ferramenta eficiente de acompanhamento de resultados e, por que não, de motivação para quem pratica exercícios.

Concordo também que precisamos de alguma forma saber se o cliente tem alguma limitação para prática de atividade física regular e também que precisamos saber coisas sobre ele para entregar propostas mais eficientes e personalizadas de treinamento e de mudança de vida.

As minhas críticas são fundamentalmente sobre 
a forma como essas medidas e procedimentos são realizadas e a nossa aparente despreocupação com a possibilidade disso causar uma experiência negativa nos clientes e alunos.

Fica aqui então novamente meu chamado e, por que não, a minha provocação para os profissionais educadores e leitores desse blog para pensarmos juntos e iniciarmos alguma mudança positiva a respeito desse assunto.

Texto de Ivan de Marco
Personal Trainer