quarta-feira, 25 de março de 2009

Viver mais e melhor

Viver muito mais que os avós já é uma 
realidade para a geração atual de joven
s e adultos. A promessa da ciência agora 
é a de uma velhice mais saudável e prazerosa


Thereza Venturoli


Nascer...
Na infância, nosso ponto fraco é o sistema imunológico: para ele se fortalecer, vai precisar de muito treino. Por isso as crianças são mais suscetíveis às infecções
...amadurecer...
Aos 30 anos, o ser humano está no auge de suas funções mentais, físicas e sexuais. Mas, no nível das células, o envelhecimento já está começando a se instalar
...e envelhecer
Parkinson, Alzheimer e câncer, entre outras, são doenças associadas à idade avançada. A boa notícia é que, quanto mais um indivíduo se cuida ao longo da vida, menor a oportunidade de esses males o atacarem na velhice

Ainda há muitas lacunas na compreensão científica do envelhecimento. Mas aquilo que a medicina já dominou concretamente a respeito desse processo abre caminho para, pela primeira vez, atacar as razões que levam à decrepitude física e mental. A visão que os cientistas têm hoje das reações bioquímicas que ocasionam o desmoronamento das estruturas sadias do corpo humano é a mais completa já colocada de pé pelos estudiosos. O geneticista Gilson Luis da Cunha, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, explica que a concepção mais atual do envelhecimento enxerga o processo como um jogo de varetas: quando se tira um palitinho, os demais se desequilibram. Componentes genéticos e ambientais se confundem, se somam e se multiplicam, numa cascata de desajustes que leva as células e, eventualmente, o indivíduo ao envelhecimento e à morte. São evidentes as vantagens terapêuticas de enxergar os processos bioquímicos do corpo humano como um feixe de varetas. Graças a essa visão, os cientistas passaram a entender que o ataque ao processo de envelhecimento tem de ser total – ou seja, não basta tentar retardar um ou outro dos fenômenos vitais. É preciso que todos sejam monitorados e corrigidos antes que comecem a perturbar a harmonia do todo. É comum, por exemplo, que as pessoas, por volta dos 50 anos, comecem a ter aumento de ácido úrico, de colesterol e da concentração de açúcar no sangue. Essas três alterações costumam aparecer ao mesmo tempo, como em uma orquestração genética perversa. Essa e outras dessas orquestrações precisam ser atacadas todas de uma vez.

O gerontologista inglês Aubrey de Grey, de 41 anos, um dos maiores estudiosos e visionários da ciência que se ocupa do prolongamento da juventude, afirma que são sete as frentes que precisam ser decifradas para que esse objetivo possa ser atingido. Ele compara cada uma delas a "pequenas goteiras que se não forem estancadas acabam fazendo o teto desabar". Grey está absorvido pela idéia de que, dado o ritmo do avanço das intervenções genéticas, dentro de algumas décadas não será surpresa se os médicos estiverem de posse de instrumentos capazes de agir diretamente sobre os sete focos principais do processo de envelhecimento. A saber:

 Células a menos – Já se sabe que as pessoas ficam mais baixas na velhice porque o espaço entre as vértebras se comprime. Ao mesmo tempo, ocorre no organismo a diminuição do número de células. Essas estruturas microscópicas que formam a pele, o sistema digestivo, o sangue, os ossos e o cérebro perdem a capacidade de se renovar. Essa é a causa da perda de massa muscular, densidade óssea e de neurônios nas pessoas de idade.

 Intoxicação interna – Incapazes de se dividirem como antes, as células ao morrer liberam substâncias tóxicas, que resultam no aumento de gordura e deterioram a pele.

 Mutações no núcleo – Mutações no DNA (a molécula no núcleo celular que carrega as informações genéticas) são normais. O acúmulo delas, no entanto, acaba desorientando o comando da célula. Essa é a causa mais comum dos tumores.

 Mutações na mitocôndria – Essa organela, que funciona como um gerador de energia para a célula, tem seu próprio DNA, que também sofre mutações. Doenças degenerativas como Parkinson, por exemplo, se originam dessas mutações.

 Lixo demais dentro das células – As células perdem a habilidade de processar o material resultante das reações químicas realizadas em seu interior. Com isso, elas não conseguem expulsar esse material. Com o passar dos anos, ficam inchadas. Isso gera caroços nos tecidos que elas formam. Inchaços na superfície das artérias, a degeneração macular e a neuronal são males que nascem dessa incapacidade das células de expulsar as toxinas geradas em seu processo vital.

 Lixo demais por fora – Por um fenômeno inverso ao da contenção de toxinas, muitas células passam a lançar para o exterior certas proteínas que normalmente ficariam encasuladas. Essas proteínas formam bolhas pegajosas que afetam principalmente o cérebro. O Alzheimer e doenças degenerativas do fígado derivam justamente desse processo.

 Proteínas grudentas – Moléculas estruturais são aquelas que formam os ligamentos, a parede das artérias e as lentes naturais do olho humano. Com o passar do tempo, parte dessas células se desprende e elas colam-se umas às outras, provocando endurecimento das artérias e pressão alta.

Nenhum dos sete fatores listados por De Grey explica, sozinho, a degeneração do corpo humano. A combinação deles – e o fato de que, pela teoria das varetas, a ocorrência de um deles acaba ativando outros – é a própria essência do envelhecimento. De Grey imagina o dia em que as terapias genéticas vão penetrar no coração molecular das células e interromper cada um dos sete fatores de envelhecimento. Muitos de seus colegas acham que isso nunca será possível. De Grey tira sua certeza de um fato interessante. Algumas predisposições genéticas naturais e certas mutações nos seres vivos produzem justamente as mudanças que ele acredita serem possíveis de obter em laboratório.

Tirar a sorte grande na loteria genética ajuda mesmo a viver mais e melhor. Um estudo comandado pelo geriatra Thomas Perls, da Universidade de Boston, apontou que 20% dos centenários americanos fumam, vários mantêm uma dieta desequilibrada e pelo menos 10% sofreram em algum momento da vida problemas cardíacos, derrames ou diabetes. Ainda assim, chegaram aos 100 anos. "Essas pessoas parecem ter uma reserva funcional ou uma capacidade de adaptação que faz o organismo resistir às doenças", disse Perls em reportagem recente da revista Time. No entanto, torna-se cada vez mais patente que, nas populações em geral, a predisposição hereditária para uma vida longa e saudável tem um peso de cerca de 25% sobre o resultado final. A responsabilidade sobre os restantes 75% recai sobre o estilo de vida. Como explicou Bradley Willcox, do Instituto de Pesquisa em Saúde do Pacífico, no Havaí, na mesma reportagem, de nada adianta uma pessoa ter genes da categoria de um Mercedes-Benz se ela não cuidar de sua manutenção e mantiver cheio o tanque do automóvel. Quem descuida do seu Mercedes acaba perdendo a corrida para o sujeito que tem um mero Fusca, mas o trata com carinho.

A definição de "estilo de vida" é ampla: inclui desde a prática de bons hábitos (evitar o tabagismo, balancear a alimentação, praticar exercícios) até circunstâncias como a nutrição na infância, a qualidade da assistência médica que se recebeu, o nível de escolaridade e o ambiente em que se vive – se sadio ou se poluído e estressante. Os lendários anciãos japoneses das ilhas de Okinawa, que são objeto de estudo desde a década de 70, representam a conjugação ideal de todos os fatores benfazejos. Eles têm uma alimentação rica em vegetais, fibras e substâncias antioxidantes, como a soja. Ao mesmo tempo sua comida apresenta poucas calorias, gordura e sal. Está demonstrado que a restrição calórica (só calórica, e não de nutrientes) tem o poder de preservar a juventude do organismo. Os idosos de Okinawa, além disso, mantêm-se ativos, quase sempre lidando com a lavoura, não deixam de exercitar a mente – seja tocando um instrumento, seja fazendo anotações num diário – e estão plenamente inseridos em sua comunidade. Esse parece ser outro fator importante na diminuição da mortalidade dos mais velhos: a participação social. O resultado dessa mistura de bom comportamento e ambiente propício faz com que esses centenários esbanjem saúde. Se comparada com as estatísticas de nações industrializadas, a incidência de problemas cardíacos, câncer e doença de Alzheimer entre eles é baixíssima.

Poucas pessoas podem levar uma vida assim regrada. Isso é fruto de aprimoramento cultural, de circunstâncias ambientais e de escolhas feitas na vida. Mas há várias lições a aprender com os moradores das ilhas de Okinawa. A primeira delas é que o ócio é literalmente mortal. O organismo humano "enferruja" se ficar parado ou não receber os lubrificantes corretos. Isso não vale só para o bem-estar físico. Descobertas recentes indicam que manter uma vida intelectual satisfatória é uma das maiores garantias de saúde sensorial que alguém pode se dar. Manter a cabeça funcionando prolonga a vida e a saúde dos neurônios. Na verdade, a atividade mental talvez faça mais do que isso: alguns estudos sugerem que ela pode ocasionar o nascimento de novos neurônios, mesmo na idade avançada (sim, você leu certo, ao contrário da arraigada concepção de que os neurônios uma vez perdidos não podem ser recuperados, descobriu-se há quatro anos que novos neurônios podem nascer ao longo da vida e se somar aos 100 bilhões originais). O outro ensinamento a tirar da longa vida dos moradores de Okinawa é que o combate aos aspectos negativos do envelhecimento começa na infância. Esses centenários chegaram aonde estão porque sempre mantiveram esse estilo de vida. Nunca é tarde para abandonar os maus hábitos – e nunca é cedo demais para adotar práticas saudáveis.

Nem todos os avanços na compreensão da máquina da vida ajudam a responder à questão básica: por que, afinal, as pessoas precisam envelhecer. A resposta é mais simples do que parece: para morrer. A natureza, como se sabe, tem compromisso com a existência da vida no planeta. O mundo natural se organiza e trabalha pela manutenção das espécies vivas e por sua constante reprodução. Mas, como todo ser vivo em posição pouco privilegiada na cadeia alimentar sabe, a natureza não tem compromisso com formas particulares e individuais de vida – nem mesmo com aquela que se enxerga como o pináculo da criação, o homem. Um organismo morre quando suas células começam a parar de funcionar pela simples razão de que já nascem programadas para esse evento final. A morte não é um ponto fora da curva, mas um fenômeno que faz parte da própria geração do ser vivo. Ainda no útero, as células de um feto humano cometem uma série de suicídios – num processo chamado apoptose – para criar algumas partes do corpo. Até os dois meses de gestação, os dedos em formação estão ligados por uma membrana. Se as células dessa teia não se autodestruíssem, os seres humanos teriam, no lugar de dedos, mãos em forma de pás, como os patos. Esse tipo de suicídio programado é, em primeiro lugar, um mecanismo que garante que cada bebê seja gerado à semelhança de seus pais: com duas mãos, duas pernas, dois olhos e um cérebro comandando tudo. A morte programada é fundamental também para a manutenção da integridade de organismos prontos. É ela que ordena, por exemplo, a desativação de células danificadas, que possam comprometer um órgão. O próprio cérebro vive cometendo apoptose – do nascimento aos 30 anos de idade, uma pessoa perde cerca de 1 milhão de neurônios, numa faxina contra as células velhas, cansadas ou que estejam sem uso. Esses comandos suicidas são, enfim, a principal ferramenta contra o câncer. Sem a ordem que dispara a auto-eliminação das células em determinado ponto de sua existência, elas se replicariam incessantemente, criando tumores.

Desde a década de 70, sabe-se que as células humanas têm capacidade limitada de se reproduzir: não se duplicam muito mais do que cinqüenta vezes. Depois, morrem. Os responsáveis por isso parecem ser os telômeros – as pontas dos cromossomos (onde está enrolado o DNA), que não servem para nada, a não ser para evitar que a molécula de DNA se esgarce como um cadarço de sapato sem aquela capa nas extremidades. A cada vez que uma célula se divide, esse arremate bioquímico vai encurtando, até acabar. Uma célula cancerosa jamais pára de se multiplicar porque os telômeros estão sempre sendo renovados.

A apoptose é ativada também sempre que o ataque de agentes externos – radiação, poluição e ingestão de substâncias tóxicas às células, por exemplo – provoca mutações no núcleo ou nas organelas celulares. Essa é a idéia que está na base da teoria do dano oxidativo, uma das mais acionadas para explicar esses fenômenos. Segundo essa teoria, o organismo envelhece porque vai se intoxicando de oxigênio. Cerca de 5% do oxigênio que o corpo absorve para transformar em energia permanece no corpo em forma altamente reativa conhecida como "radicais livres". São moléculas ou átomos propensos a interagir com os tecidos celulares causando neles um processo de oxidação, ou seja, de destruição. Mais de 200 tipos de doenças da idade estão associados à oxidação. Quanto mais agressões sofre o organismo, maior a velocidade com que aparecem os "defeitos" que podem ativar a apoptose.

Os animais multicelulares morrem por uma curiosa troca que fizeram em seu processo evolutivo, uma trajetória de bilhões de anos. Ao se tornarem multicelulares, os seres vivos se condenaram à morte. Uma bactéria e outros animais unicelulares são "imortais". As bactérias, como qualquer ser vivo, podem ser eliminadas por fome, desidratação, envenenamento ou pela ação de predadores. Mas elas não cometem apoptose. Esse sistema de autodestruição programada não é privilégio de seres humanos, mas de todos os animais multicelulares – e só dos multicelulares. Foi assim, como seres "imortais" capazes de se clonar, que os primeiros organismos unicelulares começaram a povoar a Terra há 3,5 bilhões de anos. Mais tarde essas células foram se juntando em cooperativas multicelulares. O aumento na complexidade dos organismos e, depois, a adoção da reprodução sexuada trouxeram a morte celular. É essa a linha de raciocínio adotada pelo biólogo William Clark, da Universidade da Califórnia, em seu fabuloso livro Sex and the Origins of Death (Sexo e as Origens da Morte). Clark se baseia na teoria do gene egoísta, proposta pelo influente zoólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford. Segundo essa idéia, os seres vivos são escravos da vontade de seus genes, cujo único objetivo na vida é serem repassados para a geração seguinte. Uma vez alcançado esse objetivo – ou desiludidos de que isso venha a ocorrer –, os genes se desinteressam de seus hospedeiros. Assim, com a sensação do dever cumprido, eles relaxariam em suas atividades de manutenção da vida, ocasionando o envelhecimento do organismo. Daí a expressão "egoísta" criada por Dawkins. Os seres unicelulares não se matam porque, obviamente, estariam dando cabo de seus próprios genes. Como se sabe, os genes são apenas egoístas. Não são suicidas.

Os genes egoístas matam as células absolutamente alheios ao fato de que o conjunto delas forma um ser humano – alguém que vive, ama, lê, tem uma história, entes queridos e muita vontade de viver. É no conjunto de células que residem, mais do que a aparência física ou a saúde, as qualidades que nos tornam humanos e únicos – a personalidade, as vocações e os talentos de cada um. Foram as células trabalhando em conjunto que legaram ao homem a capacidade de desenvolver a cultura e, com ela, alterar a realidade e a natureza a sua volta. E, suprema ironia, a mesma cultura que criou maravilhas sensoriais mas biologicamente inúteis, como as peças de Shakespeare, as partituras de Mozart, as pinturas de Renoir e os dribles de Pelé, produziu conhecimento sobre os processos vitais do corpo humano. Esse conhecimento cresce de modo eficaz e acelerado e, como supõe o visionário De Grey, talvez chegue o dia em que ele nos liberte da ditadura dos genes.

Fonte:http://veja.abril.com.br/150904/p_096.html