terça-feira, 7 de abril de 2009

A guerra contra o impacto


Recentemente um leitor enviou uma dúvida que me fez pensar: o uso do Kangoo Jumps (foto) é bom para aliviar o impacto durante a corrida? Para quem não faz a mínima ideia do que seja o Kangoo Jumps é um equipamento que inclui o calçado - uma espécie de tênis com cano alto - acoplado a um solado que funciona com o princípio de uma mola, diminuindo o impacto do corpo ao solo. Foi criado na Suíça e é muito usado em shows de apresentações e feiras de produtos -- também em algumas aulas de academia. Voltando então à pergunta do leitor: sim, o Kangoo alivia o impacto porque esse foi um dos princípios de sua criação. E como hoje o impacto vem levando a culpa por diversas lesões que as pessoas sofrem, o leitor associou uma possível solução ao Kangoo.

Então volto a pesquisar, rever notas de cursos de que já participei e converso de novo com colegas especialistas em biomecânica. O que obtenho como resposta em relação ao 'impacto' é no mínimo curioso. Sem a gravidade, não há impacto. Sem impacto, não há estímulo para manter ou melhorar a densidade óssea, fortalecer a musculatura e espessar cartilagens e demais estruturas. Isso é fato. Existem diversas pesquisas com astronautas que passam anos em ambientes sem a força da gravidade. Para evitar atrofias e problemas ósseos, eles se submetem justamente a treinos intensos com exercícios de muito impacto.

Por outro lado, para a maioria dos esportistas amadores existe a dúvida sobre a proteção. Há no mercado atualmente uma infinidade de produtos destinados a proteger os usuários contra entorses de joelho, tornozelo etc. Algumas pesquisas, apoiadas por uma boa parcela de especialistas, mostram que muita proteção pode, ao invés de ajudar, atrapalhar. Isso porque o nosso corpo possui mecanismos internos de proteção que podem ser inibidos, principalmente quando recursos externos são utilizados sem critério durante a execução de movimentos.

O corpo desempenha o papel de protagonista durante a prática esportiva. De acordo com a fisioterapeuta Juliana Gama (juliana.gb@terra.com.br), a avaliação da estrutura músculo-esquelética é fundamental para prevenção de lesões como entorses de tornozelo, fasceíte plantar, pubeítes/pubalgias, síndromes do trato íliotibial e do piriforme, por exemplo. A avaliação deve ser feita por um profissional da área que irá realizar uma análise minuciosa, com base em exames laboratoriais e de imagem, quando necessário, coleta de dados sobre histórico de lesões, fraturas, alterações posturais, fraqueza de músculos importantes para um bom rendimento, como os abdominais, os dos membros superiores e inferiores.  Para saber os reais efeitos do impacto sobre um atleta é preciso analisá-lo como um todo e para isso existem testes específicos a cada segmento corpóreo.

Enfim, a dúvida do leitor sobre o Kangoo me levou a uma questão que é mais complexa do que parece. A busca incansável, e às vezes exagerada, pela diminuição de impacto durante a corrida precisa ser vista sob vários aspectos. Meu conselho é: antes de investir em recursos externos, principalmente em novidades, invista em conhecer e cuidar melhor do seu corpo. Ele dispõe de recursos internos muito pouco valorizados, como o equilíbrio, força e coordenação motora.

Por Renato Dutra 

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/saude-chegada/