sexta-feira, 31 de julho de 2009

Jovens por mais tempo: Os sem Idade


Num mundo em que se vive por mais tempo e com mais saúde, 
a idade real se traduz pelo estilo de vida, e não pelo calendário

A mãe
A empresária Mara Lúcia Sarahyba, 52 anos: "Tenho no guarda-roupa algumas peças idênticas às da minha filha"
A filha
A modelo Daniella Sarahyba, 25 anos: "Minha mãe é jovial e ativa, o que faz dela uma ótima companhia para qualquer hora"


Nas últimas três décadas, a expectativa de vida aumentou mais do que em qualquer outro momento na história na maioria dos países. No Brasil, ela pulou de 62 anos, em 1980, para 73, hoje. Essa evolução fez com que o próprio conceito de velhice fosse reformulado. Já não se espera dos sessentões que se aposentem e passem os dias de pijama numa cadeira de balanço. Cada vez mais aposentados voltam ao mercado de trabalho por motivos diversos, como manter-se atualizado ou complementar o orçamento. O aumento da longevidade propiciou o surgimento de outro fenômeno, desta vez no terreno do comportamento - o de pessoas maduras que cruzam as fronteiras entre as gerações e não apenas agem, mas também se sentem como se fossem mais jovens.

São homens e mulheres que já passaram dos 40 ou 50 anos, gozam de boa saúde, disposição e acreditam que os hábitos de vida e a forma de se expressar não devem se atrelar à idade, mas à personalidade de cada um. Os americanos, sempre rápidos em dar nome aos fenômenos culturais, os chamam de ageless (sem idade, em português). "No mundo de hoje, em que vivemos mais e melhor, a idade cronológica deixou de ser tão relevante para determinar o modo de vida de uma pessoa. O que mais importa é sua capacidade no terreno funcional, social e emocional", diz o gerontologista carioca Alexandre Kalache, conselheiro da Academia de Medicina de Nova York e ex-diretor do programa de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde.

Com essa espécie de democratização da juventude, produtos e serviços antes direcionados exclusivamente ao público adolescente ou jovem começam a ganhar adeptos entre os mais velhos. A carioca Mara Lúcia Sarahyba, de 52 anos, mãe da modelo Daniella Sarahyba, de 25, é uma típica representante dos sem-idade. Mara e Daniella, apesar da diferença de geração, compram roupas nas mesmas lojas, costumam viajar juntas e não raro frequentam as mesmas festas. "Minha mãe é jovial e ativa, o que faz dela uma ótima companhia para qualquer hora", afirma Daniella. "Temos algumas peças idênticas no guarda-roupa, apesar de a Dani policiar os meus decotes", conta a mãe. "Os ageless rompem com o padrão convencional em que o comportamento é ditado pela faixa etária", disse a VEJA a inglesa Ruth Marshall, da consultoria internacional WGSN, especializada na análise e previsão de tendências de consumo.

A ascensão dos sem-idade pode ser notada na publicidade. Grande parte dos anúncios deixou de se dirigir ao público com mais de 50 anos com base na noção obsoleta de que ele só consome cremes antirrugas, tintura para cabelo e fixadores de dentadura. "O público com mais de 50 anos é hoje o grande centro de mudanças na publicidade. É o grupo demográfico que mais cresce. Seus integrantes sabem que têm muita vida pela frente e não querem ser tratados como velhinhos", diz Thiago Lopes, gerente de planejamento da Oxygen, célula de pesquisa de consumidor e tendências de mercado da agência de publicidade Talent.

Independentemente do comportamento que se adote, todo mundo quer passar os anos a mais ganhos no calendário com boa qualidade de vida, livre das doenças associadas à velhice. A série de reportagens que VEJA apresenta nas páginas seguintes traz as mais recentes e relevantes conquistas da ciência na prevenção de males que costumam surgir com o avanço dos anos. Elas servem como um manual sobre como agir na juventude e na meia-idade para atenuar as consequências das inevitáveis mudanças que ocorrem no corpo e na mente com o passar do tempo. As reportagens foram elaboradas com base em consultas a um corpo de setenta especialistas e trazem depoimentos de quem se empenha em manter a juventude através de tratamentos preventivos e estéticos. Juntas, elas formam um programa para conquistar a longevidade.

 

O jeito sem-idade de ser

Estudo no exterior depois dos 40

Ilustrações Roberto Alvarez


Curso de línguas e hospedagem em casa de família em país distante não são mais só para adolescentes. Nos últimos dois anos, as empresas que promovem esse tipo de viagem no Brasil registraram um aumento de 45% na procura por parte de pessoas com mais de 40 anos. Uma delas é o paulista João Gabriel Crivellente, operador de bolsa de valores, 46 anos, casado e pai de três filhas, com idade entre 11 e 21 anos. Durante 45 dias, ele morou com uma família em Vancouver, no Canadá, para estudar inglês. Acordava às 8 horas e levava quarenta minutos para chegar de ônibus ao curso, com a mochila nas costas. Sua inspiração para a aventura foram as filhas mais velhas. Uma delas morou no exterior e outra ainda estuda na Nova Zelândia. "Foi uma experiência inesquecível. Convivi com gente muito mais nova e aprendi sobre o seu universo. Posso dizer que rejuvenesci", conta Crivellente. O intercâmbio para pessoas maduras pode, em média, ser 50% mais caro se comparado com o mesmo programa na versão adolescente. "Isso se deve a aulas com menos alunos e a atividades recreativas, como jogos de golfe", diz Marcia Mattos, gerente de cursos no exterior da STB.

 

Não me chame de senhora


Amparadas em pesquisas de mercado com mulheres acima de 50 anos, muitas lojas treinam as vendedoras para que tratem suas clientes de maneira informal. Chamá-las de senhora, por exemplo, pode ser interpretado como um desaforo. Esse tipo de loja não tem roupas específicas para mulheres de determinada idade. Vende peças que vestem, com adaptações sutis, o corpo de mães e filhas. "Ninguém corre o risco de cair no ridículo ao usar algumas roupas iguais às da filha ou mesmo da neta. Basta respeitar a silhueta de cada um", diz a modelo e apresentadora Isabella Fiorentino, que ensina mulheres a se vestir em seu programa de televisão. Os homens alinhados com o comportamento sem-idade, por seu turno, não veem problema em usar calças jeans e sair à rua de camiseta. "Nossas vendedoras são orientadas para tratar a compradora pelo nome ou por você. As mulheres vão fazer compras para se sentir bem, e não para se sentir velhas", afirma a paulista Isabella Giobbi, estilista da marca que leva seu nome.

 

Dono do próprio nariz


Entre os brasileiros à frente de negócios próprios abertos há menos de quatro anos, a porcentagem dos que têm de 45 a 54 anos dobrou nesta década - de 7% em 2001 para 15% hoje*. "Com o aumento da expectativa de vida, as pessoas nessa faixa de idade têm atualmente mais audácia do que no passado para mudar de vida e começar um novo empreendimento", diz Ricardo Tortorella, diretor do Sebrae de São Paulo. No ano passado, após três décadas de trabalho em grandes empresas, o engenheiro paulista Rinaldo Amorati Jr., 56 anos, decidiu abandonar um cargo executivo para abrir seu próprio negócio, uma franquia de loja de alimentação. "Já estava me preparando havia seis anos para ser empresário. Chega um momento da carreira e da vida em que você quer ter autonomia. Minha mulher administrava outras franquias, e me atraíam a flexibilidade de horário e as possibilidades de crescimento", ele conta.

Por: Lailson Santos