quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A ciência da vida longa

A expectativa de vida aumentou em todo o mundo. O desafio é fazer com que esses anos a mais sejam vividos com saúde e alegria  


TRÊS ETAPAS DA VIDA
Os músculos começam a diminuir aos 25 anos. Dos 45 anos em diante, quem 
não faz exercícios regularmente perde, em média, 
1% da massa muscular ao ano

A fantasia de permanecer jovem para sempre acompanha o homem, provavelmente, desde o início da civilização. Embora seja impossível deter a marcha do calendário, nos últimos 100 anos a medicina deu passos largos no sentido de retardar processos ligados ao envelhecimento. Primeiro vieram as melhorias nas condições sanitárias, a descoberta das vacinas, a invenção dos antibióticos e dos recursos para combater doenças como o diabetes, os males cardíacos e alguns tipos de câncer. Todos esses avanços resultaram na adição de anos na expectativa de vida da população. Agora, está em curso um novo e revolucionário capítulo da ciência da longevidade. O que se procura é proporcionar qualidade de vida e uma existência feliz às populações que estão vivendo mais. Nas últimas três décadas, a expectativa de vida aumentou em onze anos no Brasil. As doenças crônicas do coração e dos pulmões, bem como as artrites, aparecem, hoje, entre dez e 25 anos depois do que surgiam em gerações passadas. Os 60 anos de idade são os novos 50. Os 50, os novos 40, e assim por diante. Esse atual cenário, em que os males associados à idade chegam cada vez mais tarde, promove mudanças profundas na maneira de encarar o envelhecimento. "A idade cronológica está deixando de ser um parâmetro determinante da juventude de uma pessoa", diz o geriatra Renato Maia Guimarães, presidente da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria. Hoje, vivemos mais e queremos viver cada vez melhor. Para que isso seja possível, o estudo da velhice adquiriu um caráter de urgência.

Estamos fadados a envelhecer. O nascimento é o início desse processo irreversível. As incontáveis reações químicas e divisões celulares que se dão ao longo da vida são, cada uma, pequeninas etapas que levam, em último grau, à senescência das células e do organismo como um todo. Recentemente, descobriu-se que o envelhecimento, ao contrário do que se acreditava, não é produto de uma única variável, mas de uma equação complexa. Nela se incluem fatores tão diferentes quanto os genes, a alimentação e a quantidade de exposição ao sol ao longo da vida. Sabe-se, também, que o peso de cada um dos fatores para o ritmo com que um organismo perde o viço não segue um único padrão – ele muda de uma pessoa para outra. Mas, afinal, o que nos faz envelhecer? Por que as células não se mantêm saudáveis indefinidamente?

As teorias que tentam explicar o envelhecimento se dividem em dois grupos. O primeiro abrange aquelas segundo as quais ele obedece a um cronograma preestabelecido pela natureza – o mesmo que determina, por exemplo, que o cérebro das crianças se desenvolva e que o aparelho reprodutivo dos adolescentes amadureça. O outro grupo de teorias aposta no ambiente como o grande vilão da juventude. Segundo elas, o impacto de agentes externos ao organismo causaria danos às células que, acumulados, inviabilizariam o funcionamento a contento do corpo. A maioria dos cientistas considera que as duas vertentes que explicam o envelhecimento não se excluem – provavelmente, o processo é resultado tanto da máquina pré-programada pela natureza quanto de fatores ambientais que a alteram.

Aos avanços no que se sabe sobre a biologia do envelhecimento, somam-se descobertas cujo efeito é de ordem prática. Muitos estudos científicos recentes se ocupam da identificação de fatores de risco e de formas eficazes para prevenir doenças ou aumentar a chance de ter uma vida saudável por mais tempo. Os primeiros estudos ambiciosos desse tipo tiveram início nos anos 50, e seu foco eram as doenças cardiovasculares. Nessa época, o fumo, o colesterol alto e a hipertensão entraram na lista negra dos cardiologistas. Os estudos que identificaram esses fatores como inimigos da juventude do organismo marcaram o começo de uma revolução que ainda está em curso na medicina e não tem data para acabar. Nos últimos anos, criaram-se exames que possibilitam a detecção de tumores minúsculos e descompassos hormonais mínimos. Com isso, aumenta-se a probabilidade de cura de cânceres ou de melhorar as condições de quem sofre de hipotireoidismo, que deixa a glândula tireoide mais preguiçosa e compromete a qualidade de vida dos pacientes.

Descobriu-se, não faz muito tempo, que apenas 35% da longevidade conquistada por uma pessoa se deve à herança genética. Mais determinantes que os genes para prolongar a vida são os hábitos. Abandonar as 5 000 substâncias tóxicas que cada baforada de cigarro leva ao organismo pode fazer com que se viva cinco anos a mais. Praticar atividades físicas regularmente estende o tempo de vida em até três anos. O mesmo vale para quem segue uma dieta balanceada. Um trabalho publicado neste ano por pesquisadores japoneses avaliou dados de quase 90 000 pessoas, entre homens e mulheres, e mostrou que aqueles com melhor condicionamento físico sofriam menos infartos, derrames e outros males do gênero. Para chegarem a essa conclusão, eles submeteram os pacientes a testes de esforço similares ao que os primos Gabriel Salomão Neto e Flávio Jancowski fizeram a pedido de VEJA (veja reportagem).No estudo japonês, os pacientes que registraram níveis de consumo de oxigênio mais altos viveram mais.

A IMPORTÂNCIA DO SONO
Durante o sono profundo, ocorre a liberação do hormônio do crescimento, o GH, um grande aliado da juventude. Noites mal dormidas provocam reduções drásticas nos níveis de GH


Nos últimos anos, houve a comprovação científica de uma hipótese formulada pela ciência na década de 60 – a de que os aspectos emocionais têm papel relevante no prolongamento da juventude. Um estudo recente da Universidade de Boston, publicado em abril no Jornal da Sociedade Americana de Geriatria, revelou que o otimismo e o bom humor ajudam a viver mais. Depois de avaliarem 246 filhos de pessoas que ultrapassaram a barreira dos 100 anos, todos eles com idade em torno de 75, os cientistas descobriram que os traços de personalidade tinham uma importância maior na longevidade e no bem-estar do que a predisposição genética a desenvolver doenças ou mesmo seus hábitos alimentares. Os menos neuróticos e extrovertidos, que lidavam melhor com o stress, tinham menos diabetes, hipertensão e doenças cardíacas. Dormir bem também ajuda na conquista da longevidade. Durante o sono profundo ocorre a liberação de hormônio do crescimento, o GH. Essa substância é uma das grandes fontes de juventude do corpo: favorece a fixação da massa muscular e dos minerais nos ossos, melhora o desempenho físico, a sustentação da pele e até mesmo o brilho do cabelo. Dos 16 aos 50 anos, a concentração de GH sofre uma queda natural de 35 para 10 microgramas por litro de sangue. A falta de sono causa uma redução ainda mais drástica. Em adultos jovens, uma noite de sono ruim leva a taxa de hormônio do crescimento para 5 microgramas por litro – metade do nível normal de um adulto mais velho. "Essa é uma das razões de nos sentirmos envelhecidos depois de dormir mal", afirma a biomédica Deborah Suchecki, da Universidade Federal de São Paulo, especialista em bioquímica do sono.

O futuro da ciência da longevidade acena com recursos que vão muito além de um receituário com bons hábitos de vida. À medida que o conhecimento sobre o organismo avança, uma nova gama de teorias emerge. Algumas pesquisas mostram que certos genes se manifestam na velhice e encurtam a longevidade. Saber como as mutações nos genes ocorrem, por sua vez, pode ter um papel fundamental no alongamento da vida das células. Há, inclusive, um ramo de pesquisas que tenta entender como o corpo conserta as moléculas de DNA que dia a dia são danificadas e por que, ao longo dos anos, ele perde essa capacidade. Uma pista veio à luz em 2004, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram que o stress encurta o telômero, a tampa bioquímica que fica na ponta dos cromossomos. Sua função é manter a integridade do DNA e impedir que a molécula se desfaça. Cada vez que uma célula se divide, o telômero fica um pouco menor, até atingir um ponto crítico. A partir daí, a célula não se reproduz mais e acaba morrendo – a falta de reposição das células que morrem é um dos fatores cruciais do declínio da vida saudável. Enquanto a ciência não desvenda por completo os mecanismos do envelhecimento, o mais sensato é seguir as recomendações que hoje se tem para manter a máquina humana funcionando sem pane – e por mais tempo.