quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Manter-se jovem: 7 razões para não vestir o pijama


Foi-se o tempo em que se aposentar significava trocar o batente
pelo ócio. Continuar trabalhando é bom para o corpo e a mente

Roberto Setton
Raul Boesel, ex-piloto de Fórmula Indy, deixou as pistas de corrida e se tornou DJ: "Emocionante como correr as 500 Milhas de Indianápolis"

 

A imagem convencional do aposentado que passa os dias descansando, vendo TV e improvisando pequenas atividades para matar o tempo está se tornando uma fotografia desbotada do passado. Com o aumento da expectativa de vida e os avanços da medicina, a maior parte dos brasileiros que hoje chegam à idade de se aposentar forma um contingente de pessoas bem-dispostas, saudáveis e com muito a oferecer ainda à sociedade. Passar o dia de pijama deixou de ser um objetivo na vida da maioria das pessoas – e os estudos científicos comprovam que essa é a melhor opção para uma vida longa e com mais qualidade. Prosseguir trabalhando após a aposentadoria traz benefícios de ordem física, psicológica e prática. O mais evidente deles é engordar o orçamento mensal. Mesmo que a remuneração na nova atividade não seja equivalente à recebida no auge da carreira, manter-se ativo faz com que o aposentado continue a se sentir útil e engajado no mundo. Além disso, segundo estudos médicos, manter a mente ativa é a melhor prevenção contra a diminuição das capacidades cognitivas do cérebro e contra doenças degenerativas como Alzheimer.

A seguir, VEJA apresenta uma lista de bons motivos para evitar a aposentadoria, elaborada com a ajuda de especialistas de diversas áreas.


1
 É A CHANCE DE MUDAR DE PROFISSÃO

Stefan


Ao longo da vida, muitos projetos permanecem guardados por falta de tempo. O envolvimento integral com uma profissão torna impossível realizá-los. Os cabelos grisalhos podem ser a grande chance de pôr esses sonhos em prática. Uma pesquisa recente encomendada pela MetLife, empresa americana de previdência privada, mostra que a vontade de experimentar um novo tipo de trabalho é o principal motivo pelo qual aposentados entre 60 e 65 anos voltam à ativa nos Estados Unidos. "No Brasil não é diferente", diz Matilde Berna, diretora de transição de carreiras da consultoria profissional Right Management. "Muitos transformam um hobby antigo em trabalho", ela conclui. O curitibano Raul Boesel, ex-astro da Fórmula Indy, 51 anos, aposentou-se das pistas de corrida para estrear nas pistas das baladas noturnas. Aos 45 anos, Boesel começou a frequentar festas de música eletrônica e se apaixonou por esse estilo musical. Encantou-se com Ibiza, na Espanha, a meca dos DJs, e desde então vai todos os anos para lá. Há dois anos, virou DJ profissional e apresenta-se em casas noturnas todo fim de semana. Como corredor, Boesel estava acostumado a acordar às 7 e meia da manhã. Hoje, é comum que chegue do trabalho a essa hora. "Só me falta tocar em Ibiza", ele diz. "Deve ser emocionante como correr as 500 Milhas de Indianápolis."

 

MANTER A RENDA MENSAL

Para quem não tem poupança ou plano de previdência privada, a aposentadoria pode representar uma queda significativa no padrão de vida. Continuar trabalhando, desde que se tenha saúde e disposição, é uma boa saída para complementar o orçamento. "Muita gente pensa que, quando se aposentar, vai gastar menos e, portanto, precisará de menos dinheiro. Mas algumas despesas aumentam com a idade, como os gastos com saúde", diz José Roberto Savoia, professor de finanças da Universidade de São Paulo. A professora paulista Vera Bruschi, de 55 anos, perdeu 40% de seu rendimento quando se aposentou, há dez anos. Prevendo a redução, decidiu investir na carreira. Fez um mestrado e hoje dá aulas de pedagogia. "Meus filhos ainda não eram independentes e, se não continuasse a trabalhar, não poderia ajudá-los com a faculdade", ela conta. Com a renda extra – o salário novo é o dobro do valor da aposentadoria –, ela planeja comprar um apartamento. "Se eu contasse apenas com o dinheiro do INSS, teria de me conformar com uma vida muito simples", conclui Vera.

Oscar Cabral
O engenheiro gaúcho Paulo Bello (com a mulher, Maria Augusta) presta consultoria e mantém uma pousada na praia: "Assim, continuo a encontrar amigos com interesses comuns"

 

3 NÃO CHATEAR A FAMÍLIA

Manter alguma atividade profissional, mesmo diferente da que se teve durante toda a vida, evita que se passe mais tempo com a família do que é aconselhável. Muitos aposentados tornam mais frequentes as visitas à casa dos filhos e netos. O risco é que, baseados em sua experiência de vida, eles acabem interferindo indevidamente na rotina familiar e na educação das crianças. "Aproveitar a companhia dos filhos adultos e dos netos que chegam pode ser muito gostoso, mas é preciso respeitar o espaço deles", adverte o psicólogo Hélio Deliberador, da PUC de São Paulo. Estadas longas na casa dos filhos costumam ser especialmente problemáticas. Muitos pais encontram dificuldade em entender que a casa dos filhos tem uma dinâmica própria. É mais provável que sua interferência produza – e não solucione – conflitos. Muitas vezes o desentendimento se instala na própria casa do aposentado. O cônjuge não está acostumado a conviver diariamente por tanto tempo com ele. Rusgas que antes eram esquecidas ao longo do período em que o marido ou a esposa estava no escritório se reforçam.

 

4 NÃO PERDER SUA TURMA

Quem se aposenta se afasta dos colegas de trabalho de um dia para o outro. Isso significa perder os interlocutores com quem mais se tem afinidade de assuntos e interesses comuns. É questão de tempo para que o aposentado sinta falta das conversas sobre temas relacionados à profissão que exerceu durante décadas. O engenheiro gaúcho Paulo Bello, de 66 anos, e sua mulher, Maria Augusta, moravam nos Estados Unidos e costumavam vir em férias a Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Quando Paulo se aposentou, passou a prestar consultoria em sua área, para não se afastar totalmente dos colegas de profissão. "Com as consultorias, eu me mantenho atualizado, sem ter de enfrentar a rotina massacrante de trabalho das grandes empresas", ele diz. Além disso, o casal transformou a casa de Angra numa pousada, na qual hospeda os amigos de longa data – inclusive antigos colegas de Paulo. Diz Maria Augusta: "Acho que não vamos recuperar o investimento, mas não importa. O meu retorno é em vitalidade. Não quero ficar parada".

Oscar Cabral
O carioca Sohaku Bastos, professor de acupuntura e caratê: "Se parar de trabalhar, fico deprimido e adoeço"

 

5 TRABALHAR FAZ BEM À SAÚDE

A ideia de que se aposentar faz bem à saúde porque propicia mais tempo para o descanso é ultrapassada. Hoje a ciência tem como certo que manter o cérebro ativo é essencial para preservar suas funções cognitivas. "Os circuitos do cérebro que são exercitados constantemente continuam saudáveis", explica a neurocientista Suzana Herculano, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O carioca Sohaku Bastos, de 61 anos, acredita nisso. Especializado em acupuntura, durante décadas ele trabalhou doze horas por dia.Viajou diversas vezes a países do Oriente para se aperfeiçoar e chegou a ter como cliente a família do presidente do Sri Lanka. Seus serviços foram tão apreciados que hoje ele é cônsul daquele país no Brasil. Nos últimos anos, Bastos diminuiu o ritmo de trabalho, mas nem pensa em se aposentar. Ele mantém uma clínica no Rio de Janeiro onde, além de acupuntura, ministra caratê e dá orientação alimentar. "Se parar de trabalhar, fico deprimido e adoeço", diz Bastos.

 

EVITAR A DEPRESSÃO

Ao se distanciar do ambiente de trabalho e da massa de novas informações que ele proporciona no dia a dia, o aposentado pode se sentir alijado da sociedade. Ler jornais ou assistir à TV dá a sensação de que, enquanto o mundo avança, ele se tornou um personagem do passado. Segundo os especialistas, esse tipo de sentimento é uma porta aberta para a depressão. "O aposentado corre o risco de se sentir velho e inútil, o que ele não é", diz a psicóloga Anete Farina, da Universidade de São Paulo. Uma nova atividade, mesmo que não traga retorno financeiro, pode evitar essa armadilha. Após trabalhar por mais de quatro décadas num dos maiores escritórios de advocacia do país, a advogada paulista Clemência Wolthers, 69 anos, nem pensou em descansar quando se aposentou. Montou um escritório em casa. Hoje representa uma organização de advogados, é conselheira da OAB, dá palestras e frequenta congressos sobre direito. Diz Clemência: "Consigo dividir tudo o que aprendi nesses anos e me mantenho a par do que acontece. As mulheres de minha geração cresceram achando que virariam vovozinhas simpáticas. Eu não virei".

 

NÃO DESPERDIÇAR A EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

Muita gente quer largar o trabalho por estar farta de horários, chefes e reuniões. Mas jogar fora a experiência de uma vida em determinado ramo profissional é um desperdício. O mais lógico é tirar partido desse conhecimento acumulado para ter horários mais flexíveis e agenda menos apertada. O primeiro passo é descobrir como fazer isso. "Não se deve pensar em quanto se vai ganhar, e sim em que áreas é possível ser produtivo", aconselha Matilde Berna, da consultoria Right Management. Isso porque dificilmente se conseguem rendimentos iguais aos do tempo em que se estava na ativa. Abrir uma consultoria ou prestar serviços para a antiga empresa são as alternativas mais comuns, mas não as únicas. Quando decidiu se aposentar, aos 56 anos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a psicóloga Malvine Zalcberg começou a dar palestras sobre psicanálise em centros culturais. Hoje viaja frequentemente pelo país para encontrar suas plateias. Dedicou-se também a escrever livros sobre o assunto – já está no terceiro. "Eu me aposentei de um trabalho, mas não da vida. Vejo essa fase como um momento de renovação", afirma Malvine.

 

Fabiano Accorsi
A advogada paulista Clemência Wolthers dá palestras e vai a congressos para se manter atualizada: "Estou a par de tudo o que acontece na profissão"