terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A ONDA É A AGUA

Os norte-americanos pagam mais por litro de água engarrafada do que pelo litro de leite, de refrigerante e até de gasolina. Já que os comerciantes vão até os confins da Terra – literalmente – atrás do mais puro H2O, Resolvemos perguntar: o que, exatamente, eles estão vendendo?

Melhor não chegar muito perto! - Pat grita para Justin.

COMEÇAMOS SACOLEJANDO NUM BOTE A MOTOR nas águas geladas de Spaniard's Bay, Canadá. Na proa está Pat - Pat Miller -, de 39 anos, nativo de Terra Nova, um sujeito de pele ultrabranquela e cabelo ruivo espetado. O olhar dele está fixo naquilo que o timoneiro Justin precisa evitar. Aquilo, no caso, é um iceberg de 30 metros de largura por 4,5 metros de altura, um pedação de gelo que aponta para fora da baía refletindo uma pálida luz branca e com um impressionante halo azul ao redor da base. Ancorado junto a ele: uma grande barcaça vermelha.

Parafraseando Humphrey Bogart em Casablanca, viemos ao Canadá pela água. Ou melhor, viemos a Terra Nova, ponto mais ao leste de toda a América do Norte, para ver Pat e sua tripulação fazer água de iceberg. O conceito é bem simples. Enganchar-se num dos icebergs que descem a costa a cada verão, derreter o gelo dessas montanhas brancas, engarrafá-lo e vendê-lo a quem estiver afim de pagar pelo que Pat insiste ser a água mais pura do planeta. "Nós pegamos de uma fonte pura desde sempre", diz ele. "Todo mundo está tentando fazer a água mais pura. Nós a colhemos."

Deixando o bote e subindo na barcaça, descobrimos que o processo de "colheita" é mais primitivo do que pensávamos. Na outra ponta do navio, um guindaste de 7 metros de altura agarra um pedação do iceberg e vem balançando com ele até largá-lo num grande triturador de aço inoxidável, preso no alto do convés da embarcação. O triturador mastiga e derrete o gelo, e a água é armazenada em um dos seis grandes tanques do barco. Sinceramente, parece um trabalho enorme por um pouquinho de água - e parece ainda mais absurdo, pelo fato de estarmos cercados de água por todos os lados.

"Vamos pegar um copo", avisa Pat. Ele volta um minuto depois, trazendo um punhado de pequenos copos. Ajoelha-se, abre um buraco num dos tanques e colhe um pouco para cada um. Mal podemos esperar para provar daquela água ainda com restos de gelo boiando. E, quando provamos, o gosto é... bem, de água.

Pat nos olha contente e prova do próprio copo. De repente, cospe a água e os gelinhos vão deslizando pelo convés. "Caramba, esta água é muito fria", comenta Pat com uma careta. "Chega a doer a cabeça!"

NOS ESTADOS UNIDOS, ATÉ POUCO TEMPO ATRÁS, O COPO D'ÁGUA VINHA DE CASA. Quem quisesse um não precisava viajar até Terra Nova nem mesmo ir até o mercado ou loja de conveniência mais próxima. Era só abrir a torneira, encher e beber - e quase de graça. Mas na última década tudo isso mudou, e hoje se vive num mundo inundado em água de garrafa. Só naquele país são 600 marcas de água envasada disponíveis. O Brasil comercializa a mesma quantidade de marcas de água mineral.

A pureza é o argumento de venda mais martelado pela indústria de garrafas de água. Examine os rótulos das principais marcas e você verá variações das palavras "pura" e "natural" se repetindo sem parar. Quanto é verdadeira essa mensagem?

Na verdade, é difícil condenar alguém por tentar faturar com o que parece ser a nossa sede insaciável. De acordo com uma empresa norte-americana de consultoria do ramo, a Beverage Marketing Corporation, o povo dos EUA gastou mais de 8 bilhões de dólares em água engarrafada em 2002 - dez vezes o valor de uma década atrás. E mais: em 2003, pela primeira vez na história, oconsumo de água pelos norte-americanos ultrapassou o de cerveja e o de café, perdendo apenas para os refrigerantes na lista de suas bebidas favoritas.

Os Estados Unidos são os maiores produtores mundiais de água envasada. Em 2005, a produção chegou a 28 bilhões de litros. Especialistas estimam que, a partir de 2009, o consumo de água em solo norteamericano ultrapassará o de todas as outras categorias de bebida - como já ocorre na Europa. O americano médio consome hoje quase 83 litros de água engarrafada por ano. Com as vendas de refrigerantes estacionadas, talvez seja questão de tempo até a água se tornar a bebida oficial do país. Já o consumo do brasileiro médio ainda é baixo e gira em torno de 31 litros por ano. Mas em São Paulo, que responde por quase 40% da produção nacional, o consumo chega a 75 litros per capita/ano. No entanto, esses índices ainda são pequenos quando comparados a outras bebidas: em 2005 foram vendidos quase 5,6 bilhões de litros de água mineral, contra 12 bilhões de litros de refrigerantes.

Em virtude da crescente preocupação ligada à boa forma - e da repetição exaustiva de que devemos beber ao menos oito copos de água por dia -, queremos cada vez mais ter água à mão a qualquer hora e em qualquer lugar. Ainda assim, o alto consumo de água está relacionado a campanhas publicitárias e à saúde pública. Com produtos "puros" e "naturais", as empresas nos fazem acreditar que a água engarrafada é melhor - e mais audável - do que o material barato que corre pelos canos. O problema? Na verdade são dois. O primeiro, ao menos quanto aos Estados Unidos: não há provas de que a água engarrafada deles seja melhor que a água de torneira de lá. E o segundo, para todos nós: talvez não precisemos beber tanta água quanto os especialistas nos dizem.

  Enquanto isso, no Brasil...
 A água mineral natural é enriquecida de sais pela natureza - podendo ter predominância de flúor, magnésio, bicarbonato etc. 

 A concessão de fontes, feita pelo Departamento Nacional de Produção Mineral, é precedida de análises que atestam a qualidade e a classi. cação das águas como minerais. 

 600 marcas de água mineral são comercializadas, destas há 120 somente no estado de São Paulo. 

A PRODUÇÃO DE ÁGUA MINERAL SE DISTRIBUI ENTRE AS REGIÕES DA SEGUINTE MANEIRA:
Sudeste50%
Nordeste24%
Sul13%
Centro-oeste7%
Norte6%

DUAS SEMANAS DEPOIS DA VIAGEM A TERRA NOVA, VISITAMOS UMA DAS FONTES DA DASANI, a segunda marca de água americana mais famosa. Lá não a vimos, mas sabíamos que estava sob nossos pés. À nossa volta, arbustos verdes, O ores brancas e vermelhas... e muitos banners da Coca-Cola. Acontece que a Dasani é um produto da Coca-Cola e a fonte não tem nada de exótico: é água de torneira da Filadélfia. Pelo menos a que nós tomamos era. A Dasani pode soar como algo dos Alpes italianos, mas é mais provável que venha de Detroit. É preciso ressaltar que essa marca não é a única que brota de outra coisa que não uma fonte. Cerca de 25% de toda a água engarrafada nos EUA é tirada de fontes municipais - água de torneira, em outras palavras. Quanto aos 75% restantes, eles realmente vêm de fontes "naturais", como fontes subterrâneas e poços artesianos.

Em terras brasileiras, as águas são captadas em nascentes naturais ou poços artesianos, ambos de reservas subterrâneas.

Se por um lado há várias razões para as pessoas beberem água engarrafada - o sabor da água de torneira nem sempre é aquela maravilha -, por outro a pureza é o argumento de venda mais martelado. Examine os rótulos e você verá variações das palavras "pura" e "natural" se repetindo sem parar. E, ao que parece, a mensagem está sendo passada. "Quando fizemos a nossa pesquisa, descobrimos que as pessoas percebiam a água de garrafa como melhor para elas do que a água de torneira", constata Rosemary Avery, professora de marketing da Universidade de Cornell (EUA) que estudou com um grupo e alunos as percepções do consumidor sobre gua engarrafada. "Eles definitivamente a achavam mais limpa, com menos bactérias." Então, quanto é verdadeira essa sensação? Não muito, ao menos para os americanos. "As pessoas estão se tapeando", diz Erik Olson, advogado da ONG americana Natural Resources Defense Council (NRDC), uma das mais empenhadas na cruzada ambientalista daquele país. "A maioria é de boa qualidade", conta Olson sobre águas testadas em seu estudo. "A surpresa foi que uma expressiva minoria - cerca de um terço - tinha problemas." Por "problemas" ele quer dizer que as águas excediam limites estaduais de contaminação ou parâmetros recomendados pelo próprio setor.

A preocupação mais comum foi um elevado nível de contagem de microorganismos heterotróficos em placa, que, mesmo não sendo nocivos por si só, podem indicar a presença de outras bactérias mais difíceis de serem detectadas. Além disso, cerca de 8% das marcas testadas ultrapassavam os limites californianos de arsênico - 5 partes por bilhão.

A pior história do relatório de Olson: uma marca pequena de "água de nascente" mostrava lago e montanhas no rótulo. Mas a origem do líquido estava num poço de uma fábrica, perto de um local sempre contaminado por agentes químicos.

No Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abinam), as empresas são obrigadas por lei a manter uma área de preservação ambiental das fontes e, a cada três anos, realizar análise oficial de qualidade. Mas a maioria das companhias faz análises diárias, e até horários de controle e os resultados - cam à disposição dos consumidores brasileiros.

Se há razão para certas águas de garrafa não serem tão puras como o mercado consumidor espera, pode ter a ver com supervisão. Nos Estados Unidos, por exemplo, a água de torneira, considerada serviço público, é regulada pela Agência de Proteção Ambiental, enquanto a água engarrafada, tida como produto alimentício, é regulada pelo Food and Drug Administration (FDA) e pelas leis de cada estado daquele país, que variam de rígidas a relaxadas.

A indústria americana responde que faz um trabalho mais do que profundo para se policiar. "Em alguns casos, nossos parâmetros chegam a exceder os do FDA e os dos estados", explica Stephen Kay, vicepresidente de comunicações da International Bottled Water Association (Associação Internacional de Água Engarrafada). "E nós exigimos inspeções aleatórias." Mas os críticos dizem que essas inspeções, que devem ser feitas anualmente, não substituem uma supervisão melhor do governo. Ao contrário daqui, os resultados levantados pela associação são mantidos con- denciais - longe dos reguladores e do consumidor americano.

motivos dessa instituição. "Embora eles digam por aí que seu produto é puro, há partículas contaminadas na água", diz o advogado. "E nós sabemos que um pouco disso pode não apresentar risco algum. O pior é quando eles vendem essa percepção de pureza e isso não representa a realidade. Se eles tiverem de listar quais contaminantes estão na água, as pessoas vão questionar: 'Por que eu estou pagando por isso?'", provoca Olson.

A ÁGUA ENGARRAFADA JÁ ESTÁ NOS ESTADOS UNIDOS HÁ DÉCADAS, EM SUA MAIORIA NAQUELES GALÕES GRANDES EMBORCADOS NOS BEBEDOUROS DAS EMPRESAS. A primeira a despontar como bebida de porção individual foi a francesa gasosa Perrier, nos anos 80. Vendida aos yuppies como um importado - no e de alta qualidade, ela agradou em cheio às pessoas mais preocupadas com o status social do que com a saúde. Embora as vendas tenham despencado após um susto com a segurança do produto (o contaminante químico benzeno, que pode causar câncer, foi encontrado em algumas garrafas), a Perrier provou algo importante. Os americanos pagavam por água em garrafa.

Mas só em meados dos anos 90 - com as vendas de refrigerantes se arrastando e o catecismo "água faz bem" crescendo - que as grandes dos refrigerantes, Coca-Cola e Pepsi, molharam a ponta do pé no mercado. A primeira foi a Pepsi, lançando a Aquafina, em 1997. Era a primeira vez que uma empresa peso pesado encampava a água engarrafada.

De repente a Aqua- na estava disponível em todos os lugares em que a Pepsi estava - postos de gasolina, lojas de conveniência, supermercados. Se a Perrier tinha sido a água da elite, a Aqua- na era a água das massas.

Em seguida veio a Coca-Cola com sua água engarrafada, a Dasani, em 1999, com forte estratégia de marketing envolvendo até estudos lingüísticos para a de- nição do nome. A sugestão de que água boa é um estilo de vida não é acidental. Quando Rosemary Avery, da Universidade de Cornell (EUA), estudou por que as pessoas bebem água de garrafa, boa parte achava que fazia tão bem para a imagem quanto para o corpo. "Muitos entrevistados disseram que carregar uma garrafa de água por aí é como vestir um acessório de moda", comenta Rosemary. "Transmite saúde, vitalidade e um aspecto jovial de bem-estar."

ENTÃO BEBENDO ÁGUA FICAMOS AINDA MAIS BONITOS, mas os fabricantes de água envasada dizem que os benefícios não param por aí. O material de marketing e websites dessas empresas está repleto de defesa e elogios ao poder curativo do H2O. "Pura, limpa, sem ingredientes químicos, a água de fonte natural é uma das melhores fontes de hidratação - e hidratação é a chave da boa saúde e da boa forma", proclama o site da empresa de água envasada Poland Spring.

É mesmo? A regra dos 8 - o indivíduo médio deve beber oito copos de 250 mililitros de água por dia para evitar a desidratação e se manter saudável - faz parte da sabedoria popular já há algum tempo e tem sido insistentemente repetida na mídia. Mas há pouco tempo, nos EUA, alguns estudiosos da área começaram a se perguntar se os relatórios de desidratação naquele país não têm sido exagerados. Dois anos atrás, os editores do jornal da Sociedade Americana de Fisiologia pediram ao professor aposentado da Faculdade de Medicina de Dartmouth Heinz Valtin, autor de dois livros sobre rins e equilíbrio de água muito usados em cursos de medicina, para encontrar as origens e as bases cientí- cas da tão repetida regra dos 8. "Não encontrei nenhuma das duas", diz o médico, que pesquisou vários bancos de dados eletrônicos, entrevistou muitos nutricionistas e examinou centenas de artigos para sua revisão. O dr. Valtin acredita que a mais provável origem da regra dos 8 foi uma resolução de 1945 da Junta de Alimentos e Nutrição do Conselho Nacional de Pesquisas, nos EUA, que defendia a ingestão de "1 mililitro de água para cada caloria ingerida". "Mas o que as pessoas não viram foi justamente a frase seguinte", esclarece ele. "Lê-se: 'E a maior parte dessa quantidade está contida nos alimentos preparados'." Em outras palavras, a maioria de nós provavelmente ingere bastante líquido durante o dia sem sequer pensar nisso. "Eu realmente acho que estamos bebendo mais do que precisamos", insiste o professor. O artigo do dr. Valtin, porém, é visto com ceticismo pela dra. Bárbara Levine, professora associada de nutrição da Faculdade de Medicina de Cornell (EUA). "É irresponsável promover a noção de que os nutricionistas e pro- ssionais de saúde estão 'agora' errados em recomendar que devem ser consumidas oito porções de água por dia", contestou Bárbara. "Ainda que não haja maior substanciamento, a regra dos 8 serve como base - um ponto de referência - que a pessoa pode ter como guia para a ingestão diária de água."

"HÁ POUCO INDÍCIO DE QUE NOSSA SEDE DE ÁGUA ENGARRAFADA DIMINUA. A água de garrafa é e vai continuar a ser a categoria de bebida em mais rápido crescimento", prevê Gary Hemphill, vicepresidente sênior da Beverage Marketing Corporation (EUA). A única queixa de consumidor que ele já ouviu: não é um produto muito excitante. Não tem gosto, não há adoçantes e a maioria não é gasei- cada. Mas ela está muito bem posicionada do ponto de vista da saúde e da boa forma. Nos últimos anos, esse tem sido um grande fator nas vendas de bebidas. E os comerciantes de água já estão respondendo ao chamado, imaginando águas vitaminadas - no Brasil, esses produtos estão chegando agora -, águas com infusão de ervas. E até águas de iceberg.

  Hidratação turbinada
PRIMEIRA ÁGUA NACIONAL RICA EM NUTRIENTES ESSENCIAIS 

Se a tendência no mercado de água é agregar valor que atraia mais consumidores, por que não incrementar a omposição desse líquido oferecendo um produto com vitaminas? Essa é a idéia da água WaterPlus, que acaba e ser lançada no Brasil. "Trata-se de uma água funcional que pode ser consumida por qualquer pessoa, seja la esportista ou não. As doses de vitaminas de cada garrafa (500 mililitros) equivalem a cerca de 80% das ecessidades diárias do homem", informa Antônio José Vilela Filho, sócio-gerente da Via Natural, empresa esponsável pela produção. Inédito em terras brasileiras, o segmento de águas funcionais é bastante explorado o exterior por marcas como as americanas Glacéau e Fuze. A WaterPlus está disponível em quatro versões: Fórmula C, com camomila, passiN ora, vitaminas C, B3, B6, B5 e B12; Fórmula S, com ácido fólico, inco e vitaminas C, B3, B5, B6 e B12; Fórmula E, com S bra alimentar reguladora do intestino, colágeno e itaminas C, B3, B6, B12 e B5; Fórmula F, com vitaminas C, B3, B5, B6 e B12.

Lá em Terra Nova, Pat Miller certamente acredita no futuro da água engarrafada - e nos icebergs. Voltando à sua cidade, ele nos conta que se conseguir um bom retorno com a água extraída de iceberg ele vai levar adiante outra idéia. "Gelo de iceberg", diz, animado. Vai arrancar pedaços de gelo do iceberg, ensacá-los e vendê-los às pessoas que estiverem dispostas a pagar pelo "gelo mais puro da Terra".

Você consegue se imaginar na beira da piscina em um resort na Bahia tomando água de iceberg servida com gelo de iceberg? Bem, se já inventaram um jeito de vender gelo para esquimós, para turistas vai ser moleza.