sábado, 17 de abril de 2010

As mulheres mais odiadas do planeta

O esporte mundial de falar mal das modelos não leva em conta 

que a maioria não precisa fazer sacrifício algum para ser magérrima


Juliana Linhares

Jason Kempin/Gwtty Images
ESTÁ NA DESCRIÇÃO
Izabel, 1,78 metro, 55 quilos de 
perfeição: "Cada profissão tem suas 
exigências. A da minha é pesar pouco"


Elas são magras, lindas, ricas, falam várias línguas e têm namorados famosos. Quem quer ser como elas? Todas. Quem fala bem delas? Ninguém. Ao contrário: retratos contemporâneos da beleza e do glamour, as modelos estão entre as mulheres – meninas, em muitos casos – mais tripudiadas do planeta. A bailarina é tão peso-pluma que flutua no ar? Admirável. A ginasta de 18 anos tem corpo de 12? Exemplar disciplina. A celebridade voltou ao corpo pré-gravidez um mês depois do parto? Palmas para ela. A estrela no tapete vermelho comporta no máximo 2 palmos de cintura? Nunca esteve tão bem. Mas bastou a gaúcha Alessandra Ambrosio, 29 anos, ser vista numa sessão de fotos com os ossinhos em evidência para o mundo cair sobre sua cabeça. Foi parar até no programa de Bill O'Reilly, popular comentarista da rede americana Fox, que abriu uma pausa na habitual e divertida sessão de flagelação do governo Obama para mostrar uma foto "chocante" da "desnutrida" Alessandra. A comentarista Megyn Kelly, uma das muitas loiras e lindas da Fox, afirmou com a cara mais séria que a Victoria's Secret, a empresa de lingerie que tem Alessandra como uma das modelos contratadas, não deveria "usá-la" em anúncios. Nem um único jornalista no mundo ousaria chamar uma famosa acima do peso de "gorda", "baleia" ou "monte de banha", mas o jornal inglês Daily Mail, o primeiro a divulgar as fotos de Alessandra, classificou-a de puro osso e praticamente desfechou uma campanha mundial de desqualificação da modelo. "Para ser muito sincera, não estou nem aí para essa polêmica", desdenha Alessandra, que mede 1,78 metro e pesa 52 quilos "desde sempre". Com o tipo físico excepcional requerido pela profissão – naturalmente muito alta e muito esguia –, a modelo passou por todos os tormentos reservados às meninas magrinhas. "Quando eu estava na escola, meu apelido era Somália. Os meninos me arranjavam os nomes mais horrorosos. O sofrimento só acabou quando me tornei modelo. Aí a magreza se tornou algo útil e bacana", conta.

The Grosby Group
POLÊMICA? TÔ NEM AÍ
Alessandra, 1,78 metro, 52 quilos, numa das fotos tripudiadas: "O sofrimento por ser magrinha só acabou quando me tornei modelo"

"Isso acontece porque é muito mais fácil apontar defeitos nas meninas do que aturar a beleza e o sucesso delas", fulmina Liliana Gomes, diretora da agência Joy Models. "As pessoas não entendem que a gente não precisa fazer esforço para ser assim. Eu, como todo mundo, às vezes tenho uma semana de trabalho corrido, em que fico sem almoçar direito. A diferença é que perco, fácil, fácil, 3 quilos", diz, com toda a sua insustentável leveza, a piauiense Laís Ribeiro, 19 anos, 1,83 metro e 50 quilos exibidos, ossinho por ossinho, num macacão de Lycra na última semana de moda de São Paulo. "Toda profissão tem suas exigências. A da minha é pesar pouco", resume Izabel Goulart, 25 anos, 1,78 metro, 55 quilos, colega de Alessandra na Victoria's Secret e considerada um dos corpos mais perfeitos da categoria peso-leve. Tantas críticas sobre as modelos, não só por serem magras, mas por fumar, não estudar, viver em festas, abusar de substâncias várias e, em certos casos, tropeçar no léxico em vários idiomas, podem ter efeitos devastadores. "Tenho estudos que mostram que, por volta dos 18 anos, elas apresentam níveis de ansiedade e stress maiores do que os notados em vestibulandas", diz o psicólogo Marco Antonio De Tommaso, especializado em atender modelos.

Vista nos bastidores, a profissão revela, sim, exageros e abusos na obrigatória manutenção da magreza. Há quase quinze anos na passarela, a paranaense Isabeli Fontana, 1,77 metro, 55 quilos, diz que a fama de pouco juízo das modelos "não é à toa", apesar do sempre presente perigo de generalização. "Muitas fazem, sim, regime de fome, gostam da noite e tomam um monte de remédios. Mas isso não quer dizer que todas sejam assim", garante. "As que vomitam e tomam remédio para emagrecer duram uma ou duas temporadas e somem, porque perdem a aparência saudável, ficam com cabelo ruim, rosto cheio de olheiras", ensina Isabel Hickmann, 1,78 metro, 53 quilos, a irmã caçula de Ana, que estudava publicidade, há um ano resolveu ser modelo e agora, aos 20, faz tantos desfiles que trancou a faculdade. A maior acusação contra as modelos é que disseminam um tipo físico totalmente fora dos padrões que, perseguido por adolescentes na difícil fase da afirmação social, leva a sofrimento emocional e, em casos extremos, a doenças. Segundo dados do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (Ambulim) do Hospital das Clínicas, em São Paulo, ao longo da vida, entre 0,5% e 4% das mulheres terão anorexia nervosa, e de 1% a 4,2%, bulimia, ambos distúrbios contemporâneos cuja complexidade ainda é estudada. Culpar as modelos pela propagação desses transtornos é tão injusto quanto atribuir a epidemia mundial de obesidade a... aquela, a famosa, bem, não vamos falar o nome dela. Todo mundo sabe quem é.

Fotos Marcelo Soubhia/Ag.Fotosite e Bruno Stuckert/Caraas
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO DESFILAR
Laís (à esq.) e a irmã de Ana, Isabel: criticadas 
por serem como tantas gostariam de ser