segunda-feira, 7 de junho de 2010

Impacto sob medida

Novos exames identificam os riscos de lesões nos joelhos, as articulações mais vulneráveis a danos causados pela prática da corrida


Recuperação rápida e indolor
Três semanas depois de ser submetido a uma cirurgia no joelho, com a injeção 
de plasma enriquecido de plaquetas, Hernanes já estava pronto para jogar


Quatro milhões de brasileiros correm pelo menos três vezes por semana. De cada dez corredores, sete sofrem algum tipo de lesão em decorrência do impacto das passadas. Na imensa maioria das vezes, os joelhos são os mais atingidos. Para prevenir os danos nessas articulações, a medicina do esporte vem desenvolvendo exames preventivos. O mais recente deles identifica um quadro bastante comum entre os corredores, os "joelhos em X" – ou seja, quando ocorre uma aproximação exagerada entre ambos durante o exercício. O teste foi desenvolvido pelo Centro de Ortopedia e Medicina Esportiva da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos. Entre os americanos, ele já é tão comum nas academias de ginástica quanto o adipômetro, a pinça usada para medir as dobras de gordura. Com o nome de SportsMetrics, o exame consiste de um programa de computador que, com base em imagens registradas quadro a quadro do esportista durante três pulos, calcula a diferença entre a largura dos quadris e a distância entre os joelhos em vários momentos do movimento. "O nível de precisão é muito superior à simples observação dos joelhos em X a olho nu", diz a fisioterapeuta Andrea Forgas, do Hospital do Coração, em São Paulo, um dos primeiros centros a oferecer o teste no Brasil. Exatidão é fundamental nesse caso. O ideal é que a distância entre os joelhos não seja menor do que 80% da largura dos quadris(veja o quadro abaixo). A partir disso, a cada 10% de inclinação dos joelhos para dentro, as chances de lesão na articulação aumentam em cerca de 20%.

Os joelhos em X são um problema mais feminino do que masculino. Para cada homem com o desvio, há duas mulheres na mesma situação. Existem duas explicações para ele ser mais comum entre elas. A primeira refere-se à força muscular. Normalmente, a musculatura mais utilizada na absorção do impacto é a localizada na parte anterior das coxas (os quadríceps). Como nas mulheres esse grupo tende a ser mais fraco, a musculatura do interior das coxas (os adutores) é mais solicitada. "Quando se usam os adutores além do necessário, os joelhos são forçados para dentro", diz o ortopedista Arnaldo Hernandez, chefe do grupo de medicina esportiva do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, em São Paulo. O segundo motivo que torna a mulher mais suscetível aos joelhos em X está relacionado à ação da progesterona. O hormônio sexual feminino funciona como uma espécie de relaxante muscular. Com isso, os joelhos ficam mais expostos a danos, principalmente em atividades de alto impacto.

O preparo muscular é fundamental na prevenção de lesões nos joelhos, articulações que absorvem metade do impacto de uma corrida, por exemplo. Para se ter uma ideia, a cada pisada, os joelhos são martelados com o equivalente a uma carga duas vezes maior do que o peso do corpo da pessoa. Há também um exame próprio para averiguar se a musculatura próxima aos joelhos consegue amortecer uma parte desse esforço – o isocinético. Ele é semelhante ao exercício na cadeira extensora das academias. Sentado, com os pés apoiados no chão de modo que pernas e coxas formem um ângulo de 90 graus, o esportista estende as pernas até alinhá-las com os joelhos. Um programa de computador determina, então, o peso que as pernas têm de levantar, de acordo com o perfil de cada um. De um homem adulto, de até 40 anos, espera-se que consiga erguer cinco vezes 16 quilos, em cada perna. De uma mulher, na mesma faixa etária, 10 quilos. Pasme, leitor, mas metade dos amadores não passa no teste. Ou seja, do ponto de vista muscular, eles ainda não estão preparados para correr. Nesses casos, o programa de corrida só deveria começar depois de, pelo menos, três meses de malhação nos ferros.

 


Sangue enriquecido

Rodrigo Coca/Fotoarena
Recuperação rápida e indolor
Três semanas depois de ser submetido a uma cirurgia no joelho, com a injeção de plasma enriquecido de plaquetas, Hernanes já estava pronto para jogar

Pelo menos um terço das lesões nos joelhos leva o esportista à mesa de operação. Independentemente da complexidade do procedimento, os pacientes têm um pós-operatório delicado e doloroso. Isso porque os joelhos constituem as articulações mais vulneráveis do corpo humano. "O desgaste natural, somado à própria lesão e à agressão da cirurgia, faz com que o tempo de recuperação seja maior em relação ao de outras articulações", diz o ortopedista Rene Jorge Abdalla, do Hospital do Coração, em São Paulo. Recentemente, a fim de reduzir o pós-operatório dos pacientes, uma técnica simples passou a ser utilizada: a injeção de plasma rico em plaquetas (PRP), extraído do próprio paciente. O plasma é a parte líquida do sangue, e as plaquetas são as células sanguíneas envolvidas nos processos de coagulação e de cicatrização. Durante a cirurgia, os médicos colhem uma amostra do sangue do paciente e triplicam a sua quantidade de plaquetas por meio de centrifugação. O plasma é, então, reaplicado diretamente na região do joelho lesionada, de modo a acelerar a cicatrização e a coagulação. Em setembro do ano passado, o jogador Hernanes, de 25 anos, volante do São Paulo, recebeu o PRP, durante uma cirurgia no menisco, estrutura diretamente responsável pelo amortecimento do impacto no joelho. Em três semanas (metade do tempo previsto), o atleta estava pronto para entrar em campo outra vez.


Por Adriana Dias Lopes