segunda-feira, 12 de julho de 2010

Perfil: Lance Armstrong


No final de maio, o americano Floyd Landis, vencedor do Tour de France em 2006, teve o título cassado por ter sido flagrado no antidoping e assumiu ter ingerido substâncias proibidas para melhorar seu rendimento. E foi além: acusou o compatriota e ex-companheiro de equipe Lance Armstrong de ter se beneficiado do mesmo artifício em suas campanhas vitoriosas na Volta da França. Essa não é a primeira vez que Armstrong é acusado de doping. Dentre seus acusadores, estão um ex-assistente pessoal, jornais franceses e ex-médicos. Apesar de tanto barulho, o ciclista nunca testou positivo para uma substância proibida em sua carreira. Só no ano passado, foi testado em 24 ocasiões e passou em todas. À acusação de Landis, Lance respondeu: "Não tenho nada a esconder. Acho que a história fala por si só. Quanto às alega&ccedi l;ões, nem vale a pena comentá-las. Não vou perder meu tempo com isso".

De qualquer maneira, todos continuam de olho nele. Afinal, Armstrong é um dos atletas mais admirados do mundo, tendo figurado na lista das 100 personalidades mais influentes (da revista Times, em 2008) e dos 10 esportistas mais bem pagos (da revista Forbes, em 2005). E ainda tem o mérito de ter transformado um esporte relativamente inexpressivo nos Estados Unidos em paixão e orgulho nacional.

Para quem não lembra, Lance Armstrong ganhou sete vezes seguidas (de 1999 a 2005) o Tour de France, aquele que é considerado o evento esportivo individual mais desgastante do planeta. Durante três semanas, 200 ciclistas dão uma volta completa ao redor do território francês, cobrindo 3.600 km, divididos em um curto prólogo e 20 etapas – que são compostas por estradas nas mais variadas condições, com pistas irregulares e trechos montanhosos. Para ter sucesso, o ciclista precisa ser completo: rápido nos trechos planos e resistente nas escaladas pelas montanhas. Tamanho esforço é recompensado com a honra de desfilar, com uma taça de champagne na mão, pela charmosa avenida Champs-Élysées, em Paris, ponto de chegada do Tour. Mas não foram apenas os triunfos em solo francês que conferiram a Lance o status de herói.  






SOBREVIVENTE
Em 1996, aos 25 anos, já um profissional com títulos importantes, Lance foi diagnosticado com câncer nos testículos em estágio avançado. A doença tinha se espalhado pelo abdômen, pulmões e cérebro, e os médicos deram-lhe 40% de chances de sobreviver. Uma previsão otimista, como o ciclista relata em sua autobiografia It's not about the bike. Seu estado era tão grave que os médicos recomendaram que Lance congelasse seu sêmen – no caso de querer ser pai um dia. Como não havia tempo a perder, dias após o diagnóstico, Lance sofreu uma cirurgia para retirada de tumores no cérebro. Na sequência, passou a encarar duras sessões de quimioterapia. Após o baque inicial da doença, passou a encará-la como mais um adversário a ser batido, mais um obstáculo a ser superad o. E se preparou física e mentalmente para isso – como aprendera a fazer desde a infância.

Nascido Lance Edward Gunderson em 18 de setembro de 1971 em Plano, Texas, Lance teve uma infância cheia de provações. Sua mãe, Linda, tinha apenas 17 anos quando deu à luz e seu pai saiu de casa antes de ele completar 2 anos. Tempos depois, sua mãe casou-se outra vez e Lance foi adotado legalmente pelo padrasto, que lhe deu o sobrenome Armstrong e com quem teve tensa relação, pois apanhava com frequência. Para obter algum destaque em sua cidade natal, era preciso pertencer à elite ou a um time de futebol americano. Tentou a segunda opção, mas não tinha habilidade com a bola oval. Determinado, ele não desistiu de encontrar um esporte em que pudesse ter sucesso e que o levasse para longe de Plano.  

NASCE UM CAMPEÃO
Com uma constituição física privilegiada (sua capacidade aeróbica e resistência à fadiga são bem acima da média), se destacava em todas as disputas escolares de que participava – de corridas de rua a provas de natação, passando por eventos de ciclismo. Aos 13, se inscreveu numa prova de triatlo, disciplina que combina essas três modalidades, e foi campeão. Passou a acumular títulos e prêmios em dinheiro vindos do triatlo – que lhe permitiram ajudar nas despesas de casa, já que a mãe e o padrasto se separaram antes mesmo de ele completar 15 anos.

Depois de terminar o segundo grau, Lance foi convocado para a seleção americana de ciclismo. A partir daí, seguiram-se participações em campeonatos internacionais e a chance de fazer carreira na Europa, centro mundial da modalidade.

Em 1999, dois anos e meio após ter recebido o terrível diagnóstico, conquistou o primeiro de seus sete títulos na Volta da França. Ao final desse mesmo ano, nasceu também seu primeiro filho.

Antes da doença, havia vencido apenas duas etapas da competição. A dificuldade, porém, tornou-o mais forte: não fisicamente, pois perdera massa muscular durante o tratamento, mas mentalmente.

çava a ser construída ali sua aura de mito. Lance virou exemplo de superação e no processo, tornou-se porta-voz das pessoas com câncer. Criou a Livestrong – fundação que até hoje arrecadou mais de 300 milhões de dólares para pesquisas sobre a doença – e fez o mundo usar uma pulseira plástica amarela: símbolo da luta contra o câncer.

Em 2009, quatro anos após sua sétima conquista no Tour, retornou ao evento que o consagrou. Explicou que sentia falta das competições e queria maior exposição para sua fundação. Num ótimo desempenho para seus 37 anos, ele terminou a competição em terceiro lugar. O campeão foi seu então companheiro de equipe, 11 anos mais jovem: o talentoso espanhol Alberto Contador, também vencedor em 2007.

Pai de quatro filhos (sendo três de seu primeiro casamento), Armstrong será pai pela quinta vez. Pelo Twitter, ele anunciou que sua namorada, Anna Hansen, (mãe de seu filho Max) está grávida e dará à luz em outubro deste ano.

Antes disso, Lance disputará mais uma vez o Tour de France. Alguém duvida que ele possa conquistar seu oitavo título?