domingo, 11 de setembro de 2011

Nova Nova York - Nossa homenagem aos dez anos de luta para superar o ataque.



Dez anos depois da queda das torres, a cidade dá a volta por cima. Bairros remodelados, novos hotéis, restaurantes, museus. 
Afinal, se o importante é ser grande, o ressurgimento de NY é um belo exemplo de como se manter grande.

O escritor e jornalista E.B. White (1899-1985), autor do belíssimo ensaio Aqui É Nova York, escrito em 1948, foi quem talvez tenha melhor definido o DNA da cidade que nunca dorme. Seu olho clínico captou meticulosa e poeticamente os tipos que circulam por ali, o ritmo fenético que atrai ou expele moradores e a delícia de ser anônimo - e voyeur - nesse lugar especialíssimo. White dividiu a cidade em três grupos de, pode-se dizer, usuários: o primeiro é dos nativos, que acham todo o agito da cidade normal e não dão a ela o valor que merece; o segundo é daqueles que moram nas cidades próximas, chegam de manhã para trabalhar e "são cuspidos como gafanhotos" ao fim do dia; e o terceiro é daqueles que vieram de algum outro canto do país ou do mundo para fazer de Nova York seu destino final. Para White, esses são os felizardos. Faço parte desse último grupo. Só mesmo apaixonados moradores, como eu, são capazes de trocar uma casa de proporções humanas, água de coco, Havaianas e um Cristo de braços abertos, coisas que eu tinha no Brasil, por um apartamento do tamanho de um armário, uma competição diária absurda e as dificuldades próprias do faça-você-mesmo. Mas, por outro lado, há muitas recompensas. Ao sair à rua, você, por exemplo, dá de cara com o Metropolitan Museum e topa com um saxofonista tocando Garota de Ipanema no Central Park. O turbilhão insano de tipos de Nova York também é curioso. Em nenhuma outra cidade do mundo o visitante se sente tão em casa no meio dele. O turbante de um, a camisa do Timão de outro, nada disso choca, nada disso causa estranhamento. Ao contrário: essa festa é muito bem-vinda. 
Só em Nova York 
Há exatos dez anos, Nova York foi machucada física e emocionalmente pelo maior ataque terrorista da história, que culminou com a destruição dos edifícios gêmeos do World Trade Center. Aquela ensolarada terça-feira, 11 de setembro, custou a vida de 2 976 pessoas, entre elas 343 bombeiros. O som das ruas era o das sirenes, o rosto das pessoas, o da perplexidade. As torres, como todas as outras de Manhattan, eram de Babel. Os sobrenomes dos mortos variam de Ogawa a Mouchinski. Quatro eram brasileiros: Sandra, Ivan, Nilton e Anne Marie. Você lembra o que fazia naquele dia? Eu acordei com um telefonema do amigo Joaquim, que me disse para ligar a TV. Ao longo do dia, meu apartamento, do tamanho de uma gaiola, virou um bunker de amigos e conhecidos que não tinham como voltar para casa. Passei a noite no Saint Vincent Hospital, no West Village, presenciando a solidariedade dos nova-iorquinos. Ali ajudavam os médicos e faziam doações de água, comida e o próprio sangue. A organização era tal que parecia que a cidade havia ensaiado exaustivamente para aquilo. Nas semanas seguintes ao atentado, as tradicionais camisetas "I love New York" passaram a acrescentar a expressão "More than ever". 

Se a cicatriz deixada por 1,7 milhão de toneladas de entulho serve como lembrança dos novos tempos em Nova York, a boa notícia é fiel ao velho ditado americano: o que não mata deixa mais forte. Nova York se levantou, sacudiu a poeira (que foi muita!) e deu, como no samba do Vanzolini, a volta por cima. E é assim que está a cidade de E.B. White, de Frank Sinatra, do Super-Homem, de Jerry Seinfeld, de Carrie Bradshaw e de Marylin Monroe (ainda que a esquina da Lexington com a 52th Street da famosa cena da saia de
 O Pecado Mora ao Lado tenha sido recriada em Hollywood): mais forte e renovada. Diz-se aqui que Nova York não voltou ao normal. Adaptou-se a um novo normal. E assim não houve emigração repentina em massa nem, muito menos, desvalorização imobiliária. Pelo contrário. Com o passar dos anos surgiram hotéis descolados, teatros foram restaurados e ruas, redescobertas. Em dez anos, o fluxo de turistas estrangeiros na cidade subiu 40%, de 35,2 milhões para 48,8 milhões - no mesmo período, o Brasil ficou estacionado nos 5 milhões. A região afetada pelos ataques - Battery Park City e TriBeCa - ficou parcialmente desativada por meses. Além de insalubres, suas quadras eram sinônimo de tristeza. Mas organizações como a Lower Manhattan Development Corporation trataram de revitalizar a área e, hoje, pode-se dizer que ambos os bairros estão melhores do que eram antes do atentado. TriBeCa ganhou seu festival anual de cinema, organizado por Robert De Niro (justamente para levantar a autoestima local), e continua a atrair arquitetos para suas lojas de decoração. A estação de trem, que ficava no próprio complexo das torres, ligando Nova York a Nova Jersey, foi parcialmente reaberta em novembro de 2003. O projeto final é assinado pelo muito badalado arquiteto espanhol Santiago Calatrava. A vitalidade do lugar pode ser medida pela instalação recente de uma filial do Shake Shack, a hamburgueria mais amada da cidade. Contíguo, o gramado do Rio Hudson é a praia local. Toda a beira do rio foi revitalizada, incluindo uma ciclovia que dá a volta em Manhattan. 

 
Outro projeto que emociona: o High Line, uma via suspensa por onde passava um trem urbano que encerrou seus trabalhos em 1980. Em 2009, essa longa via foi transformada em um jardim suspenso projetado por paisagistas e designers de ponta e agira mantido com zelo pelos moradores. O passeio começa (ou termina) na 30 Street e se estende até a Gansevoort Street, no Meatpacking District, um antigo bairro industrial, depois região de figoríficos e açougues e hoje área fashion no último, com sua Apple Store, restaurantes à la Sex and the City, além de uma filial da aclamada cadeia belga Le Pain Quotidien. Ali estão as lojas de designers como Carlos Miele, Alexander McQueen e Stella McCartney e dois hotéis sinônimos de balada: o Gansevoort e o Standard. Em 2015, essa ponta sul do High Line ganhará um vizinho especial: a nova filial do Whitney Museum, um dos grandes museus de arte americanos, que funciona hoje no tradicional bairro Upper East Side. O novo prédio do Whitney foi desenhado pelo arquiteto italiano Renzo Piano, mestre da luz e da leveza. O projeto inclui cafés, biblioteca, espaço educacional, salas para obras gigantes e uma profusão de paredes de vidro, uma delas de fente para as águas do Hudson. Renzo Piano é também criador do Centro Georges Pompidou, em Paris, além de ter desenhado o novo prédio do jornal New York Times, erguido em 2006, na 8th Avenue. Acima do Meatpacking District fica Chelsea, outro bairro que tem vivido transformações importantes. Lá está a charmosa Chelsea Market (com seus pães, muffins e o escritório do Google) e as galerias de arte, que representam artistas que vão de Vik Muniz a Pablo Picasso. O passeio das artes começa na altura da 10th Avenue. Andando rumo leste estão o Flatiron District e o Gramercy Park, hoje destino de gourmets e gourmands. Comecemos pelo Eataly, megacomplexo de 5 mil metros quadrados, aberto há um ano na esquina da 23 Street com a 5th Avenue, que reúne o melhor da gastronomia italiana e que tem alimentos produzidos artesanalmente. Tanto as refeições do restaurante vegetariano quanto o sorvete de fiori di latte, vendido em um dos quiosques, entre tantas outras coisas, são deliciosos e originais. Desde o verão, um novo espaço foi aberto na cobertura, onde você também pode experimentar cervejas artesanais. A célebre e caótica Times Square também entrou na dança. Uma audaciosa obra de urbanismo transformou parte da 7th Avenue em calçada para pedestres, com direito a mesas e cadeiras. O mesmo aconteceu na parte sul da Columbus Circle, onde a sorveteria italiana Grom abriu uma filial próxima ao imponente Time Warner Center. Ali, o deslumbre são as lojas, a casa de espetáculo Jazz at Lincoln Center e o hotel Mandarim Oriental. É um lugar em que também se come bem. Restaurantes estrelados, como o Per Se e o Masa, servem refeições que podem terminar em até US$ 500. Mas o Whole Foods, ali próximo, é bem mais fiendly para o bolso. Além de um belo bufê de saladas, há pratos indianos e sobremesas deliciosos, tudo por quilo. Continuemos mais três quadras a norte e, voilà!, chegamos ao Lincoln Center, agora de cara nova: nova fonte de água, escadaria iluminada e o Alice Tully Hall, que sedia o New York Film Festival, que não só ganhou um prédio novo em folha (depois de dois anos de obra e US$ 159 milhões em investimentos) como virou ponto de encontro para um bom vinho de fim de tarde. Há também um novo restaurante, o lindíssimo Lincoln. Mas nem tudo o que é novo agrada a todos. Bem em frente ao Lincoln Center, uma livraria Barnes & Noble de cinco andares deixou de existir, dando espaço a uma Century 21, a gigantesca loja de barganhas. Embora eu também adore fazer umas comprinhas, não troco uma tarde no café da livraria em boa companhia por nenhuma bolsa de US$ 5,99! Mas unanimidade não existe, muito menos em Nova York. E ainda bem que é assim. Além da ponte Se o tempo não para em Manhattan, que dizer do Brooklyn, que se transformou muito nos últimos 15 anos e onde regiões como o estiloso Brooklyn Heights e Williamsburg poderiam passar fácil pelo Chelsea e pelo West Village de hoje em dia. O preço atraente dos aluguéis e os 20 minutos de metrô até Manhattan abriram caminho para uma mistura virtuosa. "Hoje aqui estão inúmeras sedes de empresas importantes, prédios novos, lojas de design e restaurantes internacionais. Diria que, para entender Nova York, é preciso vir ao Brooklyn, é preciso sair um pouco de Manhattan", disse à VT Robert Ambrozy, diretor dos hotéis Marriott de Nova York. O novo memorial Caso você queira prestar um tributo aos que involuntariamente deram a vida para entrar na história, a partir deste mês está prevista, no Ground Zero, a inauguração de um memorial em homenagem às vítimas. Seus nomes foram escritos em bronze e agrupados por afinidade (como amigos e família), em vez da tradicional ordem alfabética: Torre Norte, Torre Sul, Pentágono, Vôo 93, Vôo 77, Vôo 175, Pessoal de Resgate. De qualquer forma, há tempos ocorrem no Ground Zero tributos tocantes. Como os próprios tours guiados, cinco vezes ao dia. Os guias são pessoas que foram afetadas pela tragédia - familiares de vítimas ou sobreviventes. Eles estão ali para contar a própria história. A maior parte dos tours acontece no World Financial Center, com janelas imensas e vista para toda a cratera deixada pelos ataques. A nova cara do Ground Zero, projetada pelo arquiteto alemão Daniel Liebskind, está pouco a pouco tomando forma. Um prédio novo já está em funcionamento, dois já foram levantados e mais dois estão a caminho. Em 2014 está prevista a inauguração do 1WTC, que será o edifício mais alto de Nova York, com 1 776 pés (541 metros). O número corresponde ao ano da independência americana. Sob o terreno, 18 metros abaixo do solo, está em construção a estação ferroviária em forma de pássaro do Calatrava. Além dos trens que ligam Nova York a Nova Jersey, ela vai abrigar 14 linhas de metrô e, possivelmente, uma conexão com o aeroporto JFK. Espera-se que em 2020 essa estação - que deverá custar US$ 2 bilhões - sirva 250 mil pessoas por dia. Para baixo, para cima, para o lado que se olhar, o fato é que Nova York sempre vai proporcionar a quem anda por ali uma sensação de ser king of the hill, top of the list.

O Lower East Side também foi contagiado pela onda do renascimento. Hoje, hospedar-se no Hotel on Rivington ou jantar no Falai ou no WD-50 é estar na moda. O bairro também exibe uma das pérolas de Nova York: o Tenement Museum, cujas visitas guiadas de uma hora contam a história dos imigrantes alemães, irlandeses, italianos e judeus que na virada do século passado vieram moldar Nova York. O programa tem atraído tanta gente que a administração e a loja do museu devem se mudar neste mês para um espaço maior do outro lado da histórica Orchard Street, hoje pipocada por lojinhas de novos designers e restaurantes como o Little Giant e o Café 88. Já a sorveteria Il Laboratorio del Gelato, que fabrica um delicioso sorvete artesanal e que mantinha uma loja discreta na rua, fez tanto sucesso que inaugurou a segunda unidade no bairro em julho passado em fente à tradicional Katz's Deli com muito espaço e mais de 200 sabores. Um pouco acima, a Bowery Street, no East Village, também está de roupa nova. O nome Bowery vem do holandês, idioma dos primeiros colonizadores da ilha. As ovelhas que pastores holandeses cuidavam ali no século 17 deram lugar a uma avenida que chegou a ser das mais badaladas da cidade; depois o lugar mergulhou no ostracismo e, nos últimos anos, voltou com tudo. Ali há agora endereços disputados, como o New Museum, o restaurante Gemma, no Bowery Hotel, a pizzaria Pulino's e o DBGB, novo empreendimento do chef Daniel Boulud. Todos abertos nos últimos três anos.