terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ex-bailarina vira campeã de fisiculturismo com pipoca e músculos sem exagero


Existe uma mudança em curso no fisiculturismo mundial que promete alterar a cara das disputas entre as mulheres, privilegiando aquelas que apresentem corpos mais harmoniosos em detrimento do exagero de músculos. No Brasil, quem começa a aproveitar este novo momento do esporte é Maitê Bueno Pintya, recentemente coroada campeã mundial de uma categoria que incentiva formas mais femininas. Neste cenário, a atleta paulista de trajetória meteórica se permite a exceções inimagináveis para competidoras de rotina alimentar tão restrita, como a paixão por pipocas.

Depois de 16 anos de dedicação ao balé, Maitê ingressou no universo do fisiculturismo há pouco tempo. Hoje, com apenas 20 meses de treinamento e 12 no meio competitivo, a atleta já conquistou títulos nacionalmente e foi premiada como a melhor toned figure no último campeonato mundial, na Inglaterra, na categoria que não permite muita maturidade muscular nem tanta definição.


Maitê Bueno vem de um passado como bailarina para uma ascensão meterórica como atleta do fisiculturismo Adi Leite/UOL
"Aqui, nos vestiários, as mulheres falam: 'Mas a sua cara é normal, você é super feminina'. O fisiculturismo não modificou a minha voz. Por isso acho que essa categoria é bem positiva", diz a campeã mundial de 26 anos.
A guinada que privilegia as atletas mais femininas era esperada dentro da Nabba (National Amateur Bodybuilders Association), uma das entidades importantes do esporte, em que Maitê compete. A mudança estratégica é vista como uma forma de tornar as mulheres do fisiculturismo mais bem aceitas no milionário mercado do segmento, que inclui empresas de suplementos, de equipamentos de fitness e revistas.
"Na verdade, a gente que vive neste meio já esperava por isso há alguns anos. Até demorou para acontecer. É difícil a atleta que não seja feminina arrume um patrocínio. Esta mudança acaba com este preconceito", afirma Rodrigo Koprowski, presidente da Nabba no Brasil.
Gradualmente, as principais competições internacionais já estão retirando as disputas de mulheres na categoria physique, de atletas mais musculosas, e focando atenções no grupo que tem Maitê Bueno como destaque.
PIPOCA TODA NOITE E MUITOS LITROS DE ÁGUA
A campeã Maitê trabalha para o fisiculturismo o corpo que já serviu ao balé, antigamente com 49 kg. Hoje, a atleta de 1,67 m flutua entre 63 e 65 kg nos períodos fora de competição e vai aos 56 kg em semanas de disputa.
  • Eduardo Knapp/Folha Imagem
    Brasileira Maitê Bueno em versão de competição, com corpo mais enxuto e quilos a menos
Para isso, a atleta mantém uma rotina de malhação moderada, com foco em intensidade de exercícios e não em horas gastas em academia. Na parte alimentar, trabalha com a rigidez tradicional de alguém que se devota ao fisiculturismo, com refeições em horário certo, muita batata doce e frango.
A pequena exceção fica por conta da pipoca, paixão que Maitê descobriu já como atleta do fisiculturismo. Segundo seu noivo e treinador, Roberto Bueno, a atleta chega a comer até quatro saquinhos de micro-ondas por noite. Mas a escapada é devidamente justificada. 
"Com o calor, ela perde carboidrato e fica mais fibra. Ajuda muito no meu processo digestivo. Estou acordando mais seca agora. E como sempre sem óleo e sem sal. Existe pipoca zero para micro-ondas. Tenho até uma pipoqueira", conta Maitê.
Outro hábito da ex-bailarina é o alto consumo de água. Sempre com uma garrafinha por perto, Maitê chega a ingerir de 8 a 10 litros por dia.
No dia a dia, a atleta diz que arranca olhares curiosos quando precisa fazer suas refeições com horário estipulado em locais inusitados, como dentro de ônibus. A campeã também enfrenta estranhamento quando faz pedidos inusitados fora de casa. "Vou na padaria e peço um omelete com dez claras de ovos. O pessoal fica me olhando", diz.
Mas a ditadura alimentar de Maitê tem as suas regras quebradas, uma espécie de transgressão consentida por seu treinador e noivo. "No final de semana sempre como uma pizza, um fast food. Mas só uma refeição por dia, uma no sábado e uma no domingo. A gente chama isso de 'dia do lixo'", afirma a atleta.
Natural de Ribeirão Preto, Maitê Bueno se dedicou por quase duas décadas ao balé, passando pelo clássico, jazz e até sapateado. Depois da mudança para São Paulo, a futura campeã deixou as sapatilhas e acabou descobrindo a musculação. Nesta transição, foram mais cinco anos nas academias antes do encontro com o fisiculturismo.
CAMPEÃ ESTUDA FILOSOFIA E PROJETA MUDANÇA PARA OS EUA
A campeã mundial de fisiculturismo tem uma rotina das mais triviais, conciliando os treinos com o trabalho no departamento de recursos humanos de uma grande empresa. No dia a dia, Maitê é uma pessoa normal, pega ônibus em São Paulo e usa roupas tradicionais de escritório, que escondem o corpo de atleta de alto nível. 
"Eu trabalho toda fechada, de terninho. O pessoal assusta quando vê [imagens de competição]. Pensam que eu sou fraquinha", diz a atleta.
Formada em Pedagogia e aluna do curso de Filosofia, Maitê ainda encontra tempo para encarar o mestrado em Tecnologia da Inteligência. Tudo isso somado à entrega ao esporte faz a campeã abdicar de um sono confortável. "Durmo só umas 4 ou 5 horas por noite", declara.
No entanto, incentivada pelo recente sucesso internacional, Maitê tem estudado junto com o treinador e companheiro uma ruptura no modelo de vida acima descrito. O casal pensa uma mudança para os Estados Unidos, em busca de uma possibilidade de vida exclusivamente dedicada ao esporte.
"No Brasil não tem apoio. Por isso queremos ir embora do país. Em Miami as coisas estão bem melhor. Aparece muito trabalho para empresas de suplemento e revistas do segmento", afirma Roberto Bueno, noivo e preparador da campeã.
Por Bruno Freitas