quarta-feira, 25 de abril de 2012

Dieta de baixa caloria pode tornar organismo mais vulnerável a doença intestinal




Capazes de causar inflamações desordenadas em diferentes partes do tubo digestório, área do corpo que se estende da boca até o ânus, a retocolite ulcerativa inespecífica e a doença de Crohn instigam a medicina por não terem uma causa clara. Os especialistas acreditam que os dois tipos de doença inflamatória intestinal (DII) surgem devido a uma mistura de fatores genéticos, ambientais e emocionais. Agora, um estudo com ratos de laboratório publicado recentemente pelo World Journal of Gastroenterology associa casos mais graves da doença a uma alimentação insuficiente.

Na pesquisa, especialistas da Universidade Michigan, nos Estados Unidos, perceberam que camundongos submetidos a uma dieta de baixa caloria morreram mais rápido que outras cobaias depois de todos terem sido contaminados por uma bactéria que ataca o cólon e provoca um quadro semelhante ao da retocolite ulcerativa.

“O estudo revelou que uma pessoa que segue uma dieta com calorias restritas pode impedir o sistema imunológico de responder a uma infecção desse tipo”, esclarece ao Estado de Minas Jenifer Fenton, professora do Departamento de Ciência Alimentícia e Nutrição Humana da universidade norte-americana.

Segundo ela, o estudo busca descobrir por que a ingestão de calorias insuficientes parece ter um impacto tão grande na capacidade do organismo de responder à infecção. “É possível que o mesmo mecanismo da gripe, por exemplo, esteja ocorrendo nas doenças gastrointestinais. Pesquisas futuras investigarão essa possibilidade”, sintetiza Jenifer.



A alimentação é, de fato, um dos fatores relacionados à condição crônica da DII, afirma o gastroenterologista Columbano Junqueira Neto. “Os principais fatores relacionados à fisiopatologia da doença envolvem a resposta imune do indivíduo, fatores ambientais, como hábitos alimentares e tabagismo, e a população de bactérias presentes no intestino, além de, provavelmente, inúmeros outros ainda desconhecidos”, diz.

Para realizar a investigação, a equipe de Michigan manteve três grupos de cobaias sob diferentes regimes alimentares: um rico em calorias e gorduras; outro com 30% de calorias a menos que a quantidade considerada ideal para o organismo e um terceiro com o total adequado de energia. Todas as cobaias foram então contaminadas com a bactéria H. hepaticus, que causa inflamação no cólon e provoca tumores na região. “Esse processo simula as lesões mais graves observadas em humanos que têm câncer colorretal”, explica a professora.

Os especialistas perceberam que o excesso de alimentação não influenciou de forma considerável o quadro de retocolite em relação ao grupo que recebeu uma alimentação balanceada. No entanto, os ratos submetidos a uma dieta de calorias baixas tiveram uma mortalidade maior, assim como se mostraram mais vulneráveis à ação da H. Hepaticus, morrendo antes mesmo do desenvolvimento dos tumores. “Estudos futuros devem examinar melhor a associação entre a porcentagem de gordura e as respostas do sistema imunológico. Entender como a dieta de baixa caloria aumenta a mortalidade nesse modelo pode nos levar a novos tratamentos da doença em humanos”, observa a pesquisadora.

Possibilidades 
Para Paulo Gonçalves de Oliveira, vice-presidente nacional da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBC), os resultados abrem novas possibilidades de pesquisa, mas devem ser vistos com cuidado. Além de o estudo ter sido realizado em camundongos, que em grande parte das vezes reagem de maneira diferente do homem, há a chance de a restrição de calorias ter levado os animais à desnutrição, que pode tornar o organismo fragilizado e, portanto, mais sujeito à ação de bactérias.

Oliveira, que também é chefe do Serviço de Coloproctologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB), lembra que outros estudos mostraram aumento nas mortes de animais com restrição calórica e submetidos a infecção pelo vírus da gripe (Influenza). “A lição que deve ficar talvez seja que uma dieta equilibrada, sem exageros tanto nas restrições quanto nos abusos, represente o melhor caminho para se ter uma vida saudável”, ressalta o médico.

Columbano Neto acrescenta que a obesidade costuma acarretar sérias complicações intestinais, “favorecendo o agravamento da inflamação colônica e dificultando a resposta a medicamentos”. O gastroenterologista Décio Chinzon comenta que o artigo americano é muito interessante, mas também age com cautela.

“O estudo demonstra um processo interessante, mas outras pesquisas devem ser feitas com pessoas para vermos se o resultado é semelhante em humanos. Nos últimos cinco anos, as pesquisas nessa área cresceram muito e procuraram determinar o que pode causar as DII. Nunca achamos um agente causador da doença, e como ela é crônica, não tem cura, apenas tratamento. Se um paciente parar de se tratar, há chances altas de que a doença volte”, pontua Chinzon.

Defesa
O sistema imunológico é a capacidade do organismo de combater bactérias, vírus ou fungos invasores. Ele atua destruindo ou neutralizando os micro-organismos que o corpo reconhece como ameaça. As amígdalas, o baço e a medula óssea são alguns dos órgãos vitais que ajudam nesse tipo de defesa. Problemas como a deficiência de nutrientes, a baixa acidez do estômago, a falta de células brancas no sangue e males podem baixar a imunidade do corpo, deixando-o vulnerável.