quinta-feira, 26 de julho de 2012

As novas leis do fitness

Você sabia que fazer mais abdominais não garante melhor performance?



A ciência do esporte e nutrição já mudou a visão sobre o treinamento físico muitas vezes. Depois de sustentar a importância dos calçados com amortecimento, nos mostrou, por exemplo, que correr descalço também pode ser bom. Após recomendar cuidado com os altos impactos, passou a recomendar mais impacto para a proteção dos ossos. Agora, novas surpresas podem abalar nossas antigas convicções. Estudos recentes andaram sugerindo que não é preciso fazer tantos abdominais quanto nos mandaram fazer nos últimos anos, que alongar antes da corrida mais atrapalha que ajuda e que o leite de vaca é tão bom quanto qualquer suplemento para a recuperação muscular. Talvez sejam apenas hipóteses passageiras, ou talvez verdades que transformarão o mundo do esporte por muito tempo. Ou, ainda, talvez sejam dicas-chave que servirão de base para mudanças em alguns perfis de atletas e praticantes, mas sem potencial para alterar a vida da maioria. Como diz Walter Thompson, professor da Universidade do Estado da Geórgia (EUA), os melhores parâmetros para saber o que está certo são o bem-estar e a saúde de cada um. Se mal não fizer, tudo bem. Acompanhe as novidades que selecionamos e confira se é o caso de ter uma conversa com seu treinador ou professor de Educação Física.  



Fazer mais abdominais não garante melhor performance 
Nos últimos anos, fomos bombardeados por recomendações sobre a importância de trabalhar a musculatura abdominal e os músculos do core, aqueles que, localizados entre o tórax e o quadril, estabilizam o tronco. Pranchas, exercícios com a bola suíça e em superfícies instáveis tornaram-se mantras nas academias e no treinamento esportivo. 
A teoria por trás disso é que um core forte é o que permite gerar a transferência de forças do chão até as extremidades do corpo, como a que acontece na hora em que um jogador de futebol planta um pé no gramado, equilibra-se sobre ele e dá um chute a gol com a ponta do outro pé, sem desmontar. Acreditava-se que um core fraco resultasse em uma performance medíocre, como chutes ineficientes, dores lombares e até lesões, por permitir que a força sobrecarregasse de maneira incorreta músculos e articulações – daí a insistência dos treinadores em caprichar nos exercícios para essa região do corpo.
Mas essas ideias ainda não são totalmente sustentadas pela ciência do esporte. Um trabalho sobre o tema, publicado em janeiro de 2011 no Journal of Strengh and Conditioning Research, sugere que a estabilidade do core é apenas moderadamente, e não fortemente, relacionada à força e à performance. Na prática, isso significa que a quantidade de abdominais que você fizer não será proporcional aos seus benefícios. “Não acredito que o abdômen deva ser trabalhado mais do que qualquer outra parte do corpo”, disse à SPORT LIFE Thomas W. Nesser,  professor associado da Universidade do Estado de Indiana (EUA) e um dos autores do estudo. 
John Cissik, professor de fitness e recreação da Universidade de Mulheres do Texas (EUA), também nega o papel dos exercícios abdominais na prevenção de lesões na lombar. Numa revisão da literatura científica que ele publicou no Strength Conditioning Journal, ele diz que não é possível confirmar as teorias sobre a função da estabilização do core, pois os estudos mostram resultados confusos. “Esse tipo de exercício não deveria tomar muito tempo de treino do atleta”, defende Cissik. “Existe um bocado de pesquisa mostrando que exercícios funcionais, como agachamentos e levantamento-terra, são tão bons em recrutar os músculos do core quanto os exercícios específicos – então, por que não fazer um único exercício para as duas coisas?”
Na vida real, entretanto, cada treinador vem prescrevendo o que é melhor para cada um de seus atletas. Claudio Pavanelli, preparador físico de Rodrigo Minotauro, do MMA, de Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves, do futebol, e de Átila dos Santos, do basquete, diz que a necessidade de exercícios específicos para o core varia muito de um atleta para outro e também de uma modalidade esportiva para outra. Pranchas, flexão de braços, agachamento e afundo frontal e lateral, além de plataformas vibratórias e plataformas instáveis, fazem parte do treino do core de seus atletas. “Esporte de alto nível sempre exige muito. Quanto melhor o controle corporal, melhor o rendimento e menor a probabilidade de lesões.”
Para Walter Thompson, professor da Universidade do Estado da Geórgia (EUA) e membro do conselho de revisores científicos do Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM – a autoridade científica mais respeitada no meio), é mesmo um erro achar que os resultados das pesquisas são aplicáveis a qualquer pessoa. Afinal, novas evidências surgem quase diariamente, confirmando ou refutando evidências anteriores. “Os cientistas e praticantes devem encarar as pesquisas como o que elas são: um retrato do que aconteceu a um determinado grupo de pessoas sob intervenções específicas”, diz Thompson. “Temos de ser muito cuidadosos para não mudar a forma como treinamos com base num único estudo, que talvez não sirva para nossos alunos.”