sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Como morriam os gladiadores. Muito além das arenas.

Pesquisa mostra o fim brutal dos derrotados nas lutas na arena do Império Romano

Daniel Hessel Teich
Fabiam Kanz
Fabiam Kanz
Reconstituição de uma luta: armas seguiam regras para dar chances iguais aos combatentesO golpe mortal com o tridente era na parte de trás do crânio do lutador caído ao solo
Fabiam Kanz
O golpe de misericórdia no lutador derrotado era aplicado nas costas e a espada atingia o coração

Durante 700 anos, as sangrentas lutas de gladiadores foram o mais popular espetáculo do Império Romano. Quase tudo o que se sabe sobre quem eram, como viviam e como morriam esses atletas da Antiguidade vem de referências indiretas, como inscrições, desenhos e relatos da época. Pela primeira vez, um grupo de pesquisadores austríacos está conseguindo traçar um retrato realista, baseado em evidências materiais, do que foram essas lutas travadas até a morte para o divertimento da multidão. O objeto de estudo é um cemitério no oeste da Turquia onde foram encontrados os esqueletos de 120 gladiadores, quase todos mortos em combate ou executados depois de derrotados na arena. As ossadas, datadas dos séculos III e IV, tinham marcas de ferimentos feitos por espada, tridente e por uma arma pouco comum, chamada quadridente cúbico, uma espécie de garfo grande com quatro dentes dispostos bem perto uns dos outros que se imaginava usada apenas em rituais religiosos.

O mais impressionante eram as formas de execução dos gladiadores derrotados. Aquele que tivesse ferimentos leves esperava de joelhos pelo julgamento da platéia. Caso a decisão fosse pela execução, ele era morto com um golpe de espada na jugular. Se estivesse muito debilitado, era mantido de quatro na areia e recebia o golpe nas costas, na altura do ombro. A lâmina penetrava entre os ossos e chegava diretamente ao coração. As ossadas foram achadas na antiga cidade de Éfeso, a mais movimentada da Ásia Menor na época, com 200.000 habitantes. Sua arena, adaptada sobre um teatro grego, podia acomodar 25.000 espectadores, a metade da lotação do Coliseu de Roma. Os arqueólogos da Universidade de Viena encontraram junto às tumbas muitos desenhos e inscrições a respeito da vida dos gladiadores sepultados. Iam desde grafites desenhados por crianças até entalhes nas lápides. Essas inscrições permitiram que identificassem um jovem de 21 anos que treinava para ser gladiador desde os 17 e foi morto na quinta vez em que se apresentou na arena. Outra história contada nas inscrições é a de um lutador de 30 anos que foi muito admirado pelos moradores de Éfeso: venceu 21 lutas e foi poupado da morte pela platéia em quatro derrotas. As inscrições mostravam que era possível aos combatentes morrer de velhice. Um deles viveu até os 99 anos depois de ter sido libertado e receber uma pensão do império por várias décadas.

Os gladiadores eram, em sua maioria, criminosos condenados, prisioneiros de guerra e escravos. A análise das ossadas pelos pesquisadores austríacos mostrou que eram muito bem tratados enquanto estavam em treinamento. É fácil entender por quê. Os melhores lutadores valiam o equivalente a quinze vezes o salário anual de um legionário. Se acumulavam um número suficiente de vitórias, eram libertados e, não raro, transformavam-se em organizadores de luta. As regras do jogo eram rigorosas e sempre buscavam um equilíbrio de forças entre os dois gladiadores. As armas e as roupas de proteção seguiam um padrão fixo, para que um não levasse nenhuma vantagem em relação ao outro. O que encantava a platéia era a destreza demonstrada na arena. "Eram apenas dois combatentes. Lutas com um único gladiador perseguido por vários oponentes com armaduras extravagantes não existiam. Isso só se vê nos filmes de Hollywood", disse a VEJA Fabian Kanz, antropólogo da Universidade de Viena, um dos arqueólogos que analisaram as tumbas de Éfeso. 

Fotos Fabiam Kanz
Fabiam Kanz
À esquerda: as lesões encontradas nas ossadas dos gladiadores lembram as dos atletas atuais. Abaixo: cenas de lutas
Os gladiadores treinavam com intensidade e, a julgar por seus restos, tinham o preparo físico de um atleta moderno. Quando sobreviviam, os ferimentos eram muito bem tratados. Os especialistas que estudaram os esqueletos encontraram um osso de antebraço com uma fratura que tinha sido tão bem cuidada que mal aparecia a olho nu. Um resultado assim só é possível com pronta intervenção de um médico hábil seguida de um bom tratamento de fisioterapia. Muitas das ossadas revelam uma característica observada hoje nos tenistas profissionais: o braço que empunhava a espada chega a ser 5 centímetros mais comprido que o outro. Outra semelhança com os tempos modernos são lesões de tendões e articulações, bem parecidas com as dos esportistas do século XXI. A grande diferença era, evidentemente, que, ao contrário do que ocorre hoje, um atleta que desagradasse à platéia na arena romana não vivia para se apresentar em outra competição. 

Fonte: http://veja.abril.com.br/280503/p_068.html