quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Na corrida o melhor é pisar com a ponta dos pés ou com o calcanhar?


Há algum tempo existe o debate em torno do tema, pois muitos treinadores asseguravam que o modo "correto" de pisar era com o calcanhar e não admitiam hipótese contrária. O tempo passou e eis que, para surpresa de muitos incrédulos, o assunto da moda no mundo da corrida é: qual o melhor tipo de calçado esportivo? Com ou sem amortecedor traseiro?

Isto porque, atualmente, discute-se o modo "natural" de se pisar. E qual é este jeito natural do corredor tocar o solo? Pelos últimos achados científicos, o modo natural durante a corrida é, em primeiro lugar, com o peito dos pés. E por quê? Simples: os músculos que mais atuam durante a corrida são os da parte posterior da perna (popularmente conhecida como panturrilha), ou seja, o sóleo e o gastrocnêmio, independente do tipo de relevo, confirmando a tendência natural do corredor em utilizar a "ponta" dos pés durante o deslocamento.

Apenas isso, entretanto, não era suficiente para convencer a indústria de calçados esportivos para que alterasse suas linhas de produção. Havia necessidade de algo mais: a melhora do rendimento. Assim, ao contrário do que muitos acreditavam (pois que talvez confundam "marcha" com "corrida"), 90% dos melhores corredores do mundo utilizam a "ponta" dos pés para fazer o primeiro contato com o solo e apenas 10% utilizam o calcanhar. Ou seja, mais do que suficiente para confirmar a proposição de que pisar com o calcanhar já não era mais o "modo correto". A modernidade, enfim, chegava até nós.

A partir dessas "descobertas", as grandes empresas transnacionais de calçados esportivos, de olho na novidade, já começam a lançar seus primeiros modelos atualizados, cujo formato não prevê mais aquele amortecedor alto no calcanhar, dentre outros detalhes que possam facilitar e auxiliar uma pisada de ponta do pé mais eficaz que contribua para o rendimento do corredor.

A explicação e justificativa para este novo procedimento técnico, do ponto de vista biomecânico, fundamentam-se em dois pontos:

1) A redução do impacto com o solo (menor incidência de lesões na estrutura do aparelho locomotor), com uma distribuição mais eficiente da força de impacto pela cadeia cinética;

2) A elevação do ritmo de corrida (aproveitamento da força propulsora dos músculos das panturrilhas), pela capacidade elástico-reativa das fibras musculares (ciclo alongamento-encurtamento).

Assim, se o primeiro contato dos pés com o solo, após a fase de vôo (quando os dois pés estão no ar), for realizado com o calcanhar, o impacto gerado sobrecarrega as estruturas do aparelho locomotor (ossos, tendões, ligamentos e músculos), gerando uma tensão física capaz de provocar microtraumas e lesões por repetição excessiva.

Tal gesto motor, além do mais, provoca uma frenagem no movimento com desperdício de energia e perda da força propulsiva e redução da amplitude passada (por volta de 1 cm / 100 m), reduzindo a capacidade de rendimento do corredor. Perder 1 cm / 100 m equivale a 15-20 segundos de aumento no tempo final de uma prova de 10 km, a depender da condição atlética do corredor. Isto pode representar uma derrota ou a perda do recorde pessoal.

Portanto, ao contrário do calcanhar, a ponta do pé impulsiona o corpo para frente, não havendo uma ação de frenagem do movimento e desperdício de energia. Com isso, o corredor tem o benefício do menor custo energético para o nível de intensidade de esforço realizado e menor tensão (do contato com o solo) sobre a estrutura do aparelho locomotor, o que permite uma passada mais econômica, segura e eficiente.

Entretanto, anteriormente a esta tendência atual de calçados esportivos que é denominada de "tênis mínimos", outra novidade já havia despontado no mercado, porém, foi barrada pelas normas da USATF. Trata-se do modelo Spira, cuja virtude, moldada pela tecnologia, é promover uma maior força de impulsão quando o pé toca o solo (com a ponta). Neste modelo, duas molas são colocadas na parte anterior do tênis, proporcionando este impulso extra que, entretanto, é considerado oficialmente como um modo fraudulento de obter vantagem competitiva.

Como escreveu no século XVI o grande poeta português Luiz Vaz de Camões, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; todo o mundo é composto de mudanças e vemos sempre novas qualidades", interessantes versos que mostram o quanto os seres humanos são capazes de evoluir em conhecimento e sabedoria.

Fica mais uma vez, para registro, a seriedade das informações veiculadas pela CR aos corredores brasileiros, que procura manter uma atualização constante em seu conteúdo teórico e prático.

O que ontem foi verdade, hoje não mais. E a verdade de agora, poderá não ser a realidade de amanhã. E assim caminha a humanidade, ou melhor, assim corre a humanidade em busca de novos desafios no horizonte sem fim!

O Personal Trainer Gilberto Ferreira Lage, de BH, com muitos anos de experiência, acrescenta que tudo é uma questão de adaptação. Os tênis logo  estarão sendo modificados e todos estarão  cientes desta mudança na forma de correr.

Fonte: Revista Contra Relógio dição 205 - OUTUBRO 2010 - MARCELO AUGUSTI.